O popular destino turístico no extremo sul de África tinha mais de 11 mil casos confirmados até hoje, representando 62% dos 18.000 casos da África do Sul e cerca de 10% dos 95.000 casos no continente.

Previa-se que a província de Gauteng, onde está localizada Joanesburgo, a maior cidade da África do Sul, e a capital, Pretória, fossem o epicentro da infeção do país devido à sua densidade populacional e níveis de pobreza, mas a Cidade do Cabo desafiou as previsões com elevados níveis de transmissão comunitária.

O ministro da Saúde, Zwelini Mkhize, reconheceu hoje aos jornalistas: “Nenhum modelo previu antecipadamente o que vemos no Cabo Ocidental [província]”.

“A explosão de casos no Cabo Ocidental está fora do alcance esperado e pode ser que necessitemos de intervenções adicionais para tentar conter esses números”, adiantou

As montanhas e as praias da Cidade do Cabo podem ter contribuído para o elevado número de casos de COVID-19. Com voos diretos para várias capitais europeias, acredita-se que turistas que não apresentavam sintomas trouxeram o vírus e este começou a propagar-se sem ser detetado.

Espera-se que a Cidade do Cabo atinja o pico de casos por volta do final de junho, enquanto o resto da África do Sul deverá atingi-lo em agosto ou setembro.

A África do Sul poderá registar entre 40 mil a 45 mil mortes até novembro, de acordo com o Centro de Modelação e Simulação, África, um grupo de cientistas e académicos que aconselham o Governo.

No final do ano, cerca de 13 milhões dos 57 milhões de sul-africanos poderão estar infetados, segundo este estudo.

Embora a África do Sul disponha alegadamente de camas hospitalares adequadas, continua a ter falta de instalações de cuidados intensivos.

O país tem cerca de 3.300 camas de cuidados intensivos, mas as previsões sugerem que poderão ser necessárias mais de 20 mil.

"Não se trata apenas de camas, mas de pessoal formado e ventiladores que serão necessários e que são difíceis de fornecer rapidamente”, disse Juliet Pulliam, diretora do Centro Sul-Africano de Modelação e Análise Epidemiológica, que contribuiu para o estudo. A Cidade do Cabo poderá ter falta de camas nas Unidades de Cuidados Intensivos (UCI) até ao final de junho, alertou.

A Cidade do Cabo e a província do Cabo Ocidental estão seis a oito semanas à frente do resto da África do Sul no surto, afirmaram especialistas em saúde.

"Estamos a partilhar com o resto do país as lições que estamos a aprender agora”, afirmou Nomafrench Mbombo, a principal responsável pela saúde da província do Cabo Ocidental.

Khayelitsha, uma favela de quase 500.000 habitantes, é um dos pontos quentes da Cidade do Cabo. Está a ser construído um hospital de campanha para aumentar a capacidade do Hospital Distrital de Khayelitsha, que deverá abrir até 01 de junho, segundo os Médicos Sem Fronteiras (MSF).

Uma dificuldade local é um atraso nos resultados dos testes, em alguns casos até oito a dez dias, disse Claire Keene, coordenadora médica do projeto MSF. Outro problema é que alguns profissionais de saúde deram positivo nos testes.

Um outro ponto quente do surto é a zona de Tygerburg, perto do Aeroporto Internacional da Cidade do Cabo.

Esta cidade sofreu uma enorme recessão económica devido à quebra do turismo e às restrições ao encerramento, afirmou o primeiro-ministro da província do Cabo Ocidental, Alan Winde, estimando que se perderam 200.000 postos de trabalho e que 1,2 a 1,8 milhões de pessoas na província passam fome.

Alan Winde, em auto-isolamento, depois de ter estado em contacto com um operador de câmara de televisão que mais tarde morreu de covid-19, quer que as restrições sejam abrandadas para impulsionar a atividade económica.

“Precisamos de ver a economia abrir-se com as novas operações normais, mas sem colocar o nosso sistema de saúde sob grande pressão”, disse aos jornalistas, acrescentando: “Precisamos de manter a curva tão plana quanto possível”.

Entretanto, o resto da África do Sul antecipa ansiosamente o relaxamento das restrições de confinamento em 01 de junho. Alguns funcionários governamentais afirmaram que Joanesburgo e outras partes do país permitirão que mais pessoas regressem ao trabalho e retomem a venda de álcool e de cigarros.

As escolas retomarão as aulas, começando pelos alunos dos graus 07 e 12, mas muitos professores e pais manifestaram a sua preocupação quanto à exposição ao vírus.

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