Métodos contraceptivos evitaram mil mortes maternas nos quatro países lusófonos mais pobres, entre eles Moçambique

O uso de métodos contraceptivos modernos nos quatro países lusófonos mais pobres (Guiné Bissau, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e Moçambique) evitou mais de mil mortes maternas este ano, segundo um relatório sobre planeamento familiar.

O estudo, realizado pela Family Planning 2020, iniciativa que envolve 36 países empenhados no apoio a programas de planeamento familiar, analisou o progresso no acesso e uso de métodos modernos de contracepção nos 69 países mais pobres do planeta.

Dos quatro países lusófonos incluídos, a Guiné Bissau e Timor-Leste são os que registam menor uso de métodos contraceptivos, respectivamente 15,6 e 17,2 por cento das mulheres, cerca de metade do valor em Moçambique (30,6%) e São Tomé e Príncipe (31,5%).

Os países são divididos em quatro grupos, relativamente ao nível de uso, sendo que a Guiné-Bissau, Timor-Leste e Moçambique se encontram nos do grupo de países "a entrada num período onde poderá ocorrer rápido crescimento" de uso.

São Tomé e Príncipe está entre os países "no período onde o crescimento mais rápido normalmente ocorre".

Na Guiné-Bissau o estudo estima que haja 70 mil mulheres a usar métodos contraceptivos (apenas 40% das que os procuram), que já evitaram 16 mil gravidezes indesejadas, cinco mil abortos de risco e a morte de 70 mulheres.

Em Timor-Leste há cerca de 40 mil utilizadoras (49,7% das que procuram), tendo sido evitadas 12 mil gravidezes, 4 mil abortos de risco e 10 mortes maternas.

Em São Tomé e Príncipe há 10 mil utilizadoras (52,6% das que procuram), tendo sido evitadas 3.000 gravidezes, 800 abortos de risco e cinco mortes maternas, enquanto em Moçambique há 1,82 milhões de utilizadoras (51% das que procuram) e se podem ter evitado 490 mil gravidezes indesejadas, 146 mil abortos de risco e mil mortes maternas.

Em São Tomé e Príncipe a pílula é o mais usado (39,6%), seguindo-se injecção (31%) e preservativo, enquanto na Guiné Bissau o IUD é o mais usado (24,1%), seguindo-se implantes (22,8%), o método LAM (lactação e amenorreia), usado por 16,6%, e preservativos (11,7%).

Em Timor-Leste, onde pressões religiosas travam muitos dos métodos, o mais usado é o da injecção (75%), a pílula (7,8%), o IUD (6,3%), e a esterilização e implantes (3,9% cada), com apenas 0,8% a usarem preservativo.

No caso de Moçambique o estudo indica que os métodos mais usados são a pílula e a injecção (35,5% cada) e o preservativo (24.8%).

Family Planning 2020 nasceu da cimeira sobre planeamento familiar de 2012 em Londres em que mais de 20 governos se comprometeram a lidar com políticas, financiamento, distribuição e barreiras culturais que impedem mulheres de ter acesso a métodos contraceptivos modernos.

O grupo de apoiantes da iniciativa, que cresceu para 36 países, inclui ainda a Bill & Melinda Gates Foundation, o Department for International Development do Reino Unido, o Fundo de População das Nações Unidas e a USAID.

Os países empenhados neste programa contribuíram mais de 2,6 mil milhões de dólares em apoio financeiro bilateral para programas de planeamento familiar.

No estudo indica-se que nos 69 países mais pobres do planeta, incluindo alguns dos menos desenvolvidos, mais de 300 milhões de mulheres usaram este ano métodos contraceptivos modernos.

Um "marco" que "demorou décadas aos sectores de saúde e desenvolvimento a alcançar" e que permitiu, só este ano evitar quase 124 mil mortes maternas (mais 19 mil que em 2015), 26 milhões de abortos inseguros (mais 2,5 milhões), e 82 milhões de gravidezes indesejadas (mais oito milhões).

Apesar do aumento – hoje há mais 30 milhões de mulheres que em 2012, nestes 69 países com acesso a métodos modernos de contracepção – o relatório nota que ainda é necessário mais esforço internacional para chegar à meta de 120 milhões até 2020.

A nível regional, pela primeira vez mais de 30% das mulheres nos países do Leste e Sul de África utilizaram métodos contraceptivos, tendo na África Ocidental o uso aumentado em mais de um milhão de mulheres entre 2011 e 2015.

Beth Schlachter, directora-executiva da FP2020, sublinhou que apesar de ainda não ter sido possível chegar a todas as mulheres que querem ou precisam de contracepção, é hoje possível "ter informação mais detalhada sobre cada país" e perceber melhor como actuar.

Em particular, sublinha-se no estudo, continua a faltar financiamento para programas de planeamento familiar, material incluindo preservativos e suficientes e adequados métodos de distribuição.

"Com renovado empenho temos a oportunidade e a obrigação de chegar aos locais onde é mais difícil chegar, incluindo os jovens, os mais pobres, os mais marginalizados e mais vulneráveis, garantindo que todos os programas e políticas se baseiam no principio de apoio, acesso, disponibilidade e qualidade de assistência", disse Schlachter.

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