Pelo menos 56.000 pessoas foram assassinadas no campo de concentração de Buchenwald desde 1937, ano da sua inauguração, até 1945. Lá, os prisioneiros recusavam invariavelmente qualquer ida ao médico: não importava se as dores eram intensas. "O habitual era sair da enfermaria diretamente para a chaminé do crematório", resume o escritor espanhol Jorge Semprún no romance "La Escritura o La Vida" (título original).

Buchenwald era um dos campos do regime nazi onde se testou em grande escala vacinas contra várias epidemias, como o tifo. As drogas eram ministradas indiscriminadamente a centenas de prisioneiros. Muitos dos quais sucumbiram às experiências.

Neste campo de concentração, a apenas oito quilómetros de Weimar, havia alguém obcecado com a pele dos prisioneiros. Chamava-se Erich Wagner e era um dos médicos permanentes de Buchenwald, escreve o El País. Nascido em 1912 em Chomutov, uma pequena cidade checa, assinou aos 28 anos aquela que é a tese de doutoramento mais perversa da História. Pelo menos é assim que lhe chamam vários historiadores europeus.

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Injeção letal

Os registos médicos daquele campo de concentração do centro da Alemanha não deixam margem para imprecisões histórias: na sua estreia como médico Erich Wagner administrou uma injeção letal num grupo de pessoas de etnia cigana que sofria de uma doença contagiosa sem gravidade. Meses depois, dava início à sua "grande obra": uma tese de doutoramento intitulada "Uma contribuição para a questão da tatuagem", em tradução livre do alemão "Ein Beitrag zur Tätowierungsfrage".

A tese, de 51 páginas ilustradas com 30 imagens, analisa as tatuagens de 800 pessoas segundo a sua "raça e nacionalidade", "educação" e "passado criminoso". O livro contém fotos de prisioneiros despidos, com as tatuagens de temáticas variadas à vista: mulheres nuas, desenhos de pénis, soldados a cavalo e ícones da época, como o célebre Mickey Mouse criado por Walt Disney em 1928.

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Um dos prisioneiros sobreviventes, o engenheiro químico austríaco Gustav Wegerer, recorda: "O doutor Wagner, médico da SS, trabalhou numa tese de doutoramento sobre tatuagens. Surpreendentemente, todos os prisioneiros que ordenou comparecer à sua consulta morreram. E as tatuagens arrancadas. Não é exagerado assumir que foram liquidados no edifício do hospital", cita o referido jornal.

"Autoria questionável"

Um dos exemplares da tese de doutoramento do temido médico está guardado na biblioteca da Universidade Friedrich Schiller de Jena, na Alemanha, onde o clínico nazi a apresentou, vinculando as tatuagens à criminalidade sem o apoio de qualquer método científico.

No entanto, o dermatologista alemão Peter Elsner analisou recentemente o estudo académico de Erich Wagner num artigo publicado numa revista especializada alemã. Segundo Elsner, "a autoria científica da tese é questionável".

Em 1957, diz ele, outro prisioneiro de Buchenwald, o escritor e também médico Paul Grünwald, admitiu ter sido ele a elaborar o questionário, a interrogar os 800 presos e a escrever a tese. A obra foi portanto plagiada, conclui o médico Peter Elsner.

Em 1945, Erich Wagner foi preso pelas tropas norte-americanas, mas escapou em 1948. Durante anos, conseguiu viver no estado federal da Baviera debaixo de uma identidade falsa. Mas foi apanhado em 1958 e em março do ano seguinte suicidou-se sem nunca ser julgado pelos crimes atrozes.

Ainda assim, o painel científico que assistiu à sua tese, na Universidade Friedrich Schiller de Jena, classificou-a como "muito boa".