“As decisões são muito dispendiosas, custam-nos todas as outras opções” (Irvin Yalom)

Uma das razões pelas quais as pessoas procuram terapia é por terem dificuldade em fazer escolhas. Tenho notado que, frequentemente, não é uma escolha pontual, uma fase crítica na vida que impede que o paciente tome uma decisão na situação presente. Muitas vezes, o que está por trás desta dificuldade é uma ideia acerca de o que é “uma boa escolha”. Assim uma boa escolha deveria ser algo:

  • Que não implicasse perder algo, apenas deveria ter ganhos;
  • Que não trouxesse risco ou ambiguidade, que esteja já claro tudo o que esta escolha vai trazer;
  • Que seja consensual e apoiada por todas as pessoas à nossa volta;
  • Que seja vista como a escolha perfeita em qualquer altura do futuro próximo ou longínquo.

Lendo assim tão claramente, arrisca-se dizer que todos sabemos que tal não é possível, mas vamos analisar cada um destes aspetos.

Se uma escolha apenas tivesse ganhos, então, nem nos apercebíamos que estávamos a escolher, avançávamos simplesmente. Só que mesmo as mudanças boas trazem perdas. O importante é aceitar que estas podem vir e despedir-se do que gosta na situação atual: quando nos decidimos pelo fim de uma relação amorosa ou escolhemos mudar de emprego, temos pena de perder o que de bom havia. É natural, é saudável e não significa que fosse melhor tomar uma decisão diferente desta.

As pessoas, regra geral, toleram mal a ambiguidade, a incerteza. Algumas culturas ainda toleram pior. De acordo com Geert Hofstede, que cito no livro “Este livro não é para fracos: como agir com coragem está ao alcance de todos”, Portugal é uma das culturas dos 76 países estudados que pior tolera a incerteza. Ditados populares como “antes um pássaro na mão do que dois a voar” ou aqueles conselhos/ameaças que damos por nós a dizer “olha que depois ainda pode ser pior…” são bastante dissuasores quando se trata de tomar decisões. Acontece que não é por decidir não tomar decisões que o risco desaparece e se estamos à espera de controlar todas as variáveis para ser altura de mudar, corremos o risco de passar a vida em standby. A crise que estamos a viver nos últimos meses com esta pandemia mostra bem o quanto é impossível prever e controlar tudo.

A tentação de apenas avançar na nossa decisão se todas as pessoas importantes para nós concordarem e apoiarem, pode ser uma armadilha e uma ilusão. As pessoas, por muito boa intenção que tenham, vão-nos dar a sua visão, dependendo da sua posição e do impacto que a escolha tem para elas, a sua história, as suas experiências passadas e expetativas futuras. Ninguém está onde nós estamos, ninguém tem os dados todos. Só nós conhecemos os factos, o que sentimos, o que queremos, aquilo de que temos medo. Assim, pode ser uma armadilha porque se ouvirmos diferentes pessoas podemos ficar bloqueados sem conseguir decidir porque as opiniões divergem. E é uma ilusão porque, por muito que todos concordem, a decisão é sempre individual e solitária. A responsabilidade das minhas escolhas como adulta não pode ser partilhada. Todos sabemos que é uma tentação culpar outros, mas geralmente resulta numa série de mágoas com as pessoas que culpamos pelas nossas escolhas e numa sensação de impotência e falta de autoconfiança perante a vida.

Sobre a exigência de tomar a decisão perfeita, partilho a história de um paciente que três meses antes de começar a pandemia decidiu finalmente despedir-se e começar a trabalhar como freelance. A sua área de negócio está a ser bastante afetada e, apesar de ter garantido segurança financeira por um largo período de tempo, os seus planos estão longe de se estar a cumprir. Em cima da dificuldade da situação, ele sente uma culpa enorme e a ideia “Mas porque é que eu decidi isto?” vai ruminando e minando a sua confiança. Em sessão, discutimos este tópico, o quanto era imprevisível e como seria viver sendo tão exaustivo na procura do que pode correr mal ao mudar de trabalho que chegássemos a cenários de pandemias ou meteoritos a colidir com a terra.

Trago este exemplo para falar provavelmente da maior fonte de sofrimento na tomada de decisões: uma autocrítica feroz e injusta, que se algo correr mal vai olhar para a decisão fora do seu contexto, culpando o próprio por algo que não sabia e que não tinha como saber. E é por aqui que o trabalho terapêutico muitas vezes começa - por desenvolver a compaixão e gentileza connosco próprios para que nos possamos apoiar quando a realidade se torna mais difícil. Porque viver tem riscos e todos nós fazemos o melhor que podemos com o que sabemos.

Ana Moniz - Psicóloga e Psicoterapeuta e autora de “Este livro não é para fracos: como agir com coragem está ao alcance de todos”

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