Sou um 6! Descobri-o num curso de introdução ao Eneagrama. Ao ler as características principais deste tipo de personalidade, o colaborador, fiquei desapontada. Pensava ser um 1, o idealista. Depois percebi que estava apenas no início de um caminho de (re)descoberta e integração pessoal. Um caminho muito útil, que vale a pena percorrer. Acredite! Mas, afinal, o que é o Eneagrama? Não existe propriamente uma definição para o conceito, um conceito que intriga muitos dos que já ouviram falar nesta filosofia.

Mas, em termos práticos, trata-se de uma ferramenta de autoconhecimento e desenvolvimento pessoal que assenta na ideia de que existem nove tipos fundamentais de personalidade, designados por números, do 1 ao 9. Embora, evidentemente, em cada pessoa existam características mais ou menos importantes de todos os tipos, o Eneagrama permite-nos identificar, em cada um de nós, a predominância de dinâmicas de fundo típicas de um destes nove tipos de personalidade.

Mas o Eneagrama não se detém nesta análise. A tomada de consciência das motivações inconscientes e dos mecanismos de defesa por trás de cada tipo de personalidade é o passo seguinte. Seguem-se as descobertas de que cada tipo de personalidade utiliza determinados caminhos de integração (forma como reage quando está em equilíbrio) e de desintegração (quando está em desequilíbrio) e de que partilha muitas características com os dois números vizinhos (as asas) que, muitas vezes, não reconhece nem aproveita.

E, à medida que vamos processando essa informação, o Eneagrama vai-nos apontando itinerários de equilíbrio e crescimento em direção a um maior autoconhecimento e amadurecimento pessoal, um processo de uma busca quase incessante que muita gente persegue nos dias que correm. Um dos grandes objetivos desta teoria sobre a personalidade divulgada, essencialmente, desde o início dos anos da década 1970, mas cujas origens remontam a mais de quatro mil anos.

Como pode ajudar-nos?

O Eneagrama afigura-se, essencialmente, como um meio de autoconhecimento. Isto pode parecer-lhe pouco. «Eu já me conheço», pensará, eventualmente) mas a verdade é que, na maior parte das vezes, temos dificuldade em distinguir entre aquilo que somos, aquilo que gostaríamos de ser e aquilo que achamos que os outros pensam de nós. Para além disso, a personalidade é algo que não se escolhe, é o resultado de um conjunto de estratégias de defesa que vamos desenvolvendo, de forma inconsciente, ao longo da vida.

A mais-valia do Eneagrama é, precisamente, permitir-nos desmascarar os esquemas que condicionam a ideia que temos de nós mesmos e dos outros. Gonçalo Eiró, padre jesuíta que trabalha com o Eneagrama há cerca de 20 anos, explica de forma muito clara a utilidade do Eneagrama enquanto ferramenta de autoconhecimento e bem-estar. «O que nos faz sofrer e nos torna inseguros é não conhecermos os nossos trajetos, não sabermos porque temos determinadas reações», refere.

«O Eneagrama dá-nos uma explicação lógica sobre os nossos processos, trá-los ao campo do consciente, permitindo-nos potenciar ou corrigi-los», refere. «Quando estamos seguros e tranquilos, sentimos bem-estar; não temos medos porque nos conhecemos», acrescenta. Por outro lado, João Pedro, iniciado no Eneagrama há cerca de 10 anos, sublinha outro aspeto importante. «Entender que as pessoas têm naturezas diferentes», sublinha.

«E, por conseguinte, formas diferentes de reagir perante as mesmas situações é um passo fundamental no modo como nos relacionamos com os outros», acrescenta ainda. «Se percebo que alguém tem determinado tipo de reações porque, por defesa, foge à dor, aceito melhor essa limitação e aprendo a lidar com ela», exemplifica. Vale a pena pensar nisso também. Este caminho de (re)descoberta exige muita reflexão e também pode envolver alguma meditação.

Veja na página seguinte: Quando e onde aprender?

Quando e onde aprender?

Qualquer pessoa pode iniciar-se no Eneagrama, mas o ideal é fazê-lo depois dos 23 anos (quando a personalidade já está reconhecida) e antes dos 50 anos (quando estamos mais predispostos a aprender e a crescer).  Evite fazê-lo se estiver em crise e/ou depressão, devido à carga emotiva que pode estar associada à dinâmica do autoconhecimento. A forma mais simples de descobrir qual o seu tipo de personalidade é através de um teste de despistagem.

Pode realizá-lo, preferencialmente, num curso devidamente orientado, para evitar más interpretações. Sugerimos os cursos de iniciação (geralmente de dois dias) feitos no Centro Universitário Padre António Vieira (CUPAV ), em Lisboa, que se realizam durante o ano letivo. Para saber mais, consulte o site do CUPAV, disponível em www.cupav.pt. Encontra também mais informações sobre este espaço aqui.

As qualidades e os defeitos dos nove tipos de personalidade:

1. Idealista

É uma pessoa comprometida em melhorar as coisas. Pode ser perfeccionista e mesquinha.

2. Ajudante

Pessoa amável, altruísta, extrovertida e afetuosa. Tem tendência para manipular os outros recorrendo aos sentimentos.

3. Organizador

Pessoa com objetivos claros e grande capacidade de trabalho. Tem tendência para sacrificar os sentimentos, dando prioridade ao êxito.

4. Artista

Pessoa reflexiva, introvertida e intuitiva. Tem tendência para a tristeza e para o encerramento em si mesma.

5. Observador

Pessoa que ama a liberdade e a independência. Sofre com a intimidade interpessoal.

6. Colaborador

Pessoa com forte sentido de responsabilidade e fidelidade. Tem dificuldade em aceitar a ambiguidade.

7. Otimista

Pessoa caracterizada por traços de vitalidade, alegria e energia que a tornam atrativa. Tem tendência para fugir da dor.

8. Chefe

Pessoa forte, realista e orientada para a ação e o trabalho. Pode ser agressiva e arrogante.

9. Mediador

Pessoa calma, amistosa e prática. Tem dificuldade em dizer que não.

Texto: Fernanda Soares com Gonçalo Eiró (padre jesuíta)

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