Efetivamente não tendemos a pensar e a sentir este privilégio com a frequência que o mesmo merece. Parece ser tudo fácil quando, na verdade, devíamos com maior frequência questionar: o que é que conquistámos depois dos nossos avós/pais? Creio que muito pouco. É quase irrisório na verdade.

O meu propósito não é julgar ninguém, gostaria apenas de nos convidar a todos (todos aqueles que menciono em cima como privilegiados e a mim própria) a questionar a vida, a questionar as decisões que tomam por e para nós, muitas das quais nos levam a querer que temos poder de escolha, sendo que a hipótese A igual à hipótese B, muda a terminologia, a cor e a forma mas a essência é a mesma, se formos em consciência verificar.

Quem serão de facto os responsáveis pela direção da nossa vida? Vamos, na maioria das vezes, apontar o dedo aos pais, aos educadores, mais tarde aos pares, aos maridos e esposas. Isto sem nunca sequer colocar em causa que somos absolutamente responsáveis por procurar viver em maior harmonia, em verdade, alinhados com a nossa essência.

Se conseguíssemos convidar para a nossa vida a compaixão pela nossa história, individual, familiar e coletiva, talvez nos tornássemos ser humanos mais sensíveis às feridas dos outros (que se cruzam connosco), iríamos estar mais sensibilizados para as necessidades reais, sem ego. Ser empáticos com a história do outro, sentir compaixão, eleva a nossa humanidade.

O privilégio de consumir informação, só por si, é uma bênção. Talvez aqui, neste país que escolhemos para viver, soe a um dado adquirido, sendo que não valorizamos a génese da conquista e nem usufruímos o propósito da mesma.

Assim é, também, na nossa narrativa interna. Consumismo o que queremos, sem questionar se somos de facto tão horríveis como por vezes nos sentimos, sem questionar se não merecemos de verdade sermos felizes, como a crença que foi instalada um dia nos faz crer, e já não nos permite evoluir mais, não nos protege de mais nada.

Hoje assinala-se o Dia Internacional das Crianças Inocentes Vítimas de Agressão (em regime de protesto), na mesma semana em que já celebrámos o dia da criança, no mesmo ano em que já privámos (demasiado e com graves consequências) as crianças de estarem com outras, privando-as de SER o que sabem exclusivamente: crianças.

Não deixa de ser uma agressão e não deixam de ser vítimas todas as crianças que estão impossibilitadas de ir para a creche que conhecem, brincar com os primeiros amigos que conhecem, receber o tão estimado e reconfortante colo dos educadores - que tanto os haviam estimulado e amparado. Puxamos assim o tapete às crianças, ignoramos que têm sentimentos, que não sabem perceber – e não é suposto que saibam – o porquê de algumas pessoas terem simplesmente, como por efeito de magia, desaparecido das suas vidas. Convenhamos, crianças/bebés não têm mesmo que perceber nada, só sentem e só exploram nos seus primeiros anos de vida. Não têm capacidade cognitiva para questionamento, isso é coisa para adultos, e é lamentável que a maioria dos adultos não desenvolva essa distinta capacidade.

Vamos pressupor que as crianças também têm o seu círculo de confiança, e garanto-vos que têm, quão maléfico é fazer desaparecer este círculo? Quando pensamos no que é ser criança, automaticamente os nossos lábios esboçam um sorriso, os nossos olhos ganham um brilho, e, se prestarmos atenção, até o nosso coração parece aquecer ligeiramente.

Fere-nos, porém, quando somos confrontados com esta realidade: ser criança em Portugal não é o mesmo que ser criança no Uganda, na Rússia, na Índia ou nos Estados Unidos da América. As realidades são bem distintas. Muitas medidas têm que ser tomadas e/ou cumpridas para que as crianças tenham espaço para viver em amor, com direito à segurança, à proteção, à aprendizagem. Mais do que cumprir quotas, é preciso garantir que as crianças são apenas crianças, e o que estamos a fazer às nossas crianças é atroz.

Não estou a querer comparar a privação do contacto com outras crianças aos crimes hediondos que são praticados recorrendo a crianças, seria de uma ingenuidade e hipocrisia tremenda da minha parte, mas à nossa escala, de país maravilhoso que bradamos aos céus, no top do rancking ‘xpto’, as crianças não estão a ser dignamente vistas e cuidadas. E isto deve-se ao afastamento causado pela pandemia e à ausência de contacto, seja em formato presencial ou online, que fez com que esta realidade desaparecesse das suas vidas de um momento para o outro.

As consequências serão gritantes, vamos poder observar a curto-médio prazo. É algo que está para breve.

Pais, educadores, atentem as vossas crianças. Existem decisões que estão VERDADEIRAMENTE ao vosso alcance. Decisões essas que devem passar pela promoção de brincadeiras, o contacto sem medo e a sociabilidade entre elas. As crianças, ao estarem privadas dos seus pares, vão aumentar o seu lugar narcísico, vão ganhar aversão à troca, à partilha, à entreajuda. Lembre-se disso.

Convido-vos a partilharem comigo os vossos questionamentos, as vossas inquietações. Podem fazê-lo através do email: soraiasequeira.heartcoach@gmail.com

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