É agora ou nunca. No artigo anterior, escrevi sobre a minha experiência de há largos meses num retiro de ioga numa comunidade ecossustentável em Aljezur, no Algarve, em plena natureza, durante o qual me senti compelida a abrandar e a reavaliar as prioridades. Um dos ensinamentos que retirei desta experiência e que fez ainda mais sentido na fase de confinamento que vivemos na primavera de 2020 é a importância de uma alimentação sustentável e a necessidade de sermos cada vez mais autossuficientes.

A nossa vida atingiu proporções de complexidade e o que esse período de confinamento nos veio mostrar foi que, afinal, voltámos em muitas situações ao mais básico. Quanto menos compras, menos desperdício e lixo produzimos. Temos mais tempo para fazer coisas que nunca fizemos e que sempre comprámos, como o pão, assim como para cultivar em vasos ou nos quintais as nossas ervas aromáticas ou até mesmo algumas verduras. Na comunidade ecossustentável que nos acolheu praticava-se a permacultura.

Fazê-la é estar em harmonia com a natureza, não ir contra ela. Deixá-la seguir o seu curso. Um dos workshops que tivemos foi uma tarde dedicada à prática da permacultura nas hortas biológicas onde eram cultivadas variedades de hortícolas e de frutos. Na estadia, tinha apenas uma tenda individual onde eu só cabia deitada, uma mochila e uma mala que, vim a perceber depois, ocupava demasiado espaço. Constatei que, afinal, podemos precisar de muito pouco para subsistir. Para estar ali, precisava de um abrigo para dormir, de (pouca) roupa, de uma lanterna para me deslocar à noite da área comum para a tenda e de um livro.

Só não consegui prescindir do telemóvel para estar em contato com a família. Tive um choque inicial com a língua do grupo ao qual me juntei, que era de nacionalidade alemã. Havia sempre alguém que era o elo de ligação ao coletivo e eram todos da mesma geração, na casa dos 30 e poucos anos. E ali estava eu, com 49, uma portuguesa a tentar comunicar em inglês. A comida era toda vegetariana e deliciosa. Era quase tudo colhido da horta ou feito localmente, como a combucha, uma bebida milenar de origem chinesa.

Falei aqui, no artigo anterior, sobre o workshop de comunicação não violenta, o que me leva até a uma TED Talk [palestra muito popular] que me fascina numa era de extremos e da necessidade de consensos e de gerir as diferenças e de dialogar entre pessoas de opiniões divergentes. Nela, a autora, Megan Phelps-Roper, a antiga porta-voz do grupo religioso homofóbico e antissemita Westboro Baptist Church, explica, em apenas quatro pontos, como se pode dialogar com pessoas em contextos ideologicamente opostos.

Não inicie a conversa com ideias pré-formatadas, mantenha a calma, faça perguntas e, por fim, elabore os seus argumentos. A conclusão a que cheguei é que não devemos partir sempre do princípio que as pessoas têm más intenções ou algo escondido na agenda. É importante fazer tábua rasa da situação atual e não nos deixarmos afetar por preconceitos e/ou por experiências anteriores. Permanecermos calmos em situações de conflito de ideias ou argumentos é outro dos comportamentos que devemos adotar.

Fazer perguntas demonstra interesse pelo outro. É também uma forma de o conhecer e até de esclarecer situações. Não presumir, mas questionar, interrogar como alguém que não sabe o contexto do outro. Por fim, devemos apresentar o nosso argumento e as nossas ideias com calma, de forma a semear o nosso ponto de vista e a suscitar a dúvida, confrontando o nosso interlocutor com as suas próprias convicções. Mesmo que o outro não concorde connosco, podemos sempre fazê-lo pensar e ponderar. Reset now or never.

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