Apesar dos números alarmantes do vírus mortal, nascido na China, ainda há, no país, quem venda e compre alimentos nesses locais em condições higiénicas precárias, aumentando os riscos de doenças.
Embora Angola não ter diagnosticado qualquer caso positivo dessa epidemia, o vírus, que já infectou mais de 90 mil pessoas de vários países do mundo, incluindo o Egipto (2 casos), a Argélia (3), Nigéria (1), Marrocos (1), Senegal (1) e Tunísia (1), em África, matou mais de três mil cidadãos.
Conquanto alguns pesquisadores apontem os morcegos como os primeiros portadores do vírus, não se sabe, ao certo, como foi possível, pela primeira vez na história, o coronavírus afectar humanos.
Segundo Dirk Pfeiffer, professor de veterinária na Universidade de Medicina de Hong Kong, a conclusão sobre esse facto ainda é incerta, porque o estudo está longe de comprovar que os pangolins, por exemplo, foram os transmissores do vírus.
Para o pesquisador chinês, é necessário estabelecer um vínculo entre os seres humanos e os mercados de alimentos, em Wuhan (China), tido como o epicentro da doença.
Já James Wood, chefe do Departamento de Medicina Veterinária da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, afirma que os indícios para o potencial envolvimento do pangolim na epidemia "não é uma evidência científica".
"A mera detecção do vírus nesse animal, com uma similaridade de 99%, está longe de ser robusta".
Diante deste cenário de incertezas sobre a mutação do vírus, de animais para homem, especialistas advertem para o perigo que os mercados a céu aberto podem representar para a saúde pública.
Segundo Domingos Cristóvão, especialista em Saúde Pública, alguns mercados informais perigam a saúde dos cidadãos, por falta de condições higiénicas satisfatórias para a venda de produtos alimentares.
O médico afirma que 70 a 80 por cento das doenças que afectam os cidadãos em Angola são provocadas por alimentos vendidos em condições higiénicas precárias.
Conforme o especialista, os alimentos vendidos nesses mercados, principalmente a carne, têm maior probabilidade de ser contaminados pelos vírus oportunistas, como o próprio coronavírus, tendo em conta a exposição dos produtos ao ar livre e ao lixo.
Aponta a carne comercializada nesses mercados como alimento suspeito, porque nem sempre se sabe qual é o estado de saúde dos animais abatidos para o consumo.
"Os produtos vendidos a céu aberto até podem ter qualidade, mas o facto de estarem expostos ao sol e aos roedores ou insectos transmissores de bactérias, vírus e fungos transforma-os em potenciais fontes de doenças", alerta o especialista.
Para além da carne, os alimentos prontos a serem consumidos, como pão e bolinho, assim como a água embalada de forma artesanal vendida nos mercados têm grandes probabilidades de transmitir doenças graves às pessoas.
Domingos Cristóvão aponta a ténia armada, diarreia, toxicose alimentar, gastrite intestinal e cólera como as principais doenças do tubo digestivo que são transmitidas por alimentos comercializados em más condições higiénicas, em locais como os mercados a céu aberto.
O nutricionista José Nguepe, por sua vez, concorda que a carne é um dos principais alimentos com maior probabilidade de passar doenças aos seres humanos, por estar exposta às bactérias e aos vírus.
"Até agora, os estudos, ainda preliminares, indicam que o coronavírus teve como origem o consumo de carne de várias espécies de animais contaminados", lembra.
Para além da carne, o especialista aponta as verduras, os legumes e os congelados comercializados em más condições higiénicos como os alimentos que podem ser veículos de transmissão de várias doenças.
"Os cidadãos precisam de compreender que, no mundo, existem várias bactérias e inúmeros vírus que, ao entrar em contacto com o homem, podem transmitir doenças que destroem o corpo humano de forma rápida", adverte.
Acrescenta que as doenças parasitárias, como coliformes fecais, cisticercose, ténias saginatas, entre outras, são as principais patologias que o ser humano pode contrair através do consumo de alimentos expostos ao ar livre.
Domingos Francisco, um epidemiologista, também aponta a falta de higiene nos mercados como a principal causa/origem do parasita intestinal, do paludismo, da febre tifóide, disenteria, hepatite infecciosa, cólera, leptospirose, dengue e chikungunya.
A mosca e o mosquito, explica, são vectores biológicos que vivem ou pousam no lixo e, de seguida, podem contaminar os alimentos consumidos pelas pessoas.
O exemplo disso é o caso da febre tifóide e da cólera, consideradas doenças de mãos sujas, porque a sua transmissão é feco-oral (fezes-boca).
Realidade dos mercados em Luanda
Apesar da tendência de requalificação e melhoria das condições higiénicas de alguns mercados de Luanda, sobretudo os informais, o saneamento básico nos locais de venda dos produtos alimentares ainda está longe de atingir os níveis desejados/recomendáveis.
A título de exemplo, no bairro Catinton, distrito urbano da Maianga, município de Luanda, dois mercados disputam o mesmo espaço de venda de produtos procurados por milhares de consumidores, como banana, mandioca, ginguba, batatas doce e rena, manga, abacate e abacaxi.
Separados por apenas um muro de blocos, no primeiro espaço comercial, designado mercado 1.º D'Agosto, de iniciativa privada, os produtos são comercializados no interior de um quintalão coberto com cerca de 10 naves metálicas.
Mesmo com essa vedação, cobertura, arruamentos e construção/montagem de pequenas bancadas, com cerca de um metro de altura, nesse mercado, existente há 16 anos, nem todos os alimentos se escapam do contacto com areia/terra, que pode conter bactérias.
No segundo estabelecimento, denominado mercado do Catinton, gerido pela coordenação do bairro Cassequel, os bens alimentares são vendidos debaixo de três naves, sem vedação/quintal.
Paralelamente aos dois espaços, existe uma via/estrada de difícil circulação rodoviária e de peões que se transformou em mercado informal, onde boa parte dos alimentos está exposta ao sol e vendida por cima de bancadas já velhas e em montes de terra/areia.
Nesse espaço, produtos como carne, peixe, frango, legumes, verduras, fuba, arroz, açúcar, feijão, entre outros, partilham o palco com lixo, lama e água parada.
O caso mais crítico ocorreu recentemente, quando uma vendedora mandou abater porcos em bancadas de madeiras sujas e velhas, montadas no meio do lixo, lama e água parada ao redor.
A imagem dessa cena tornou-se viral através das redes sociais.
A vendedora, cuja identidade não foi revelada, diz que comprou os porcos no bairro Benfica, município de Belas (Luanda), e os levou ao Catinton para abater e vender a carne, segundo o responsável pela manutenção do mercado 1.° D'Agosto, Domingos Xavier.
O responsável afirma que, devido ao perigo que representou a acção da comerciante, no dia seguinte, se deslocou ao local uma comissão multissetorial, que determinou a retirada das vendedoras daquele espaço, para reintegrá-las no interior de um dos mercados, visando evitar a repetição dessa acção.
A fonte afirma que não existem razões para as vendedoras comercializarem os produtos na rua, porque, no interior dos dois mercados do Catinton, ainda há muito espaço.
"No mercado do Catinton, que praticamente está às moscas, há cerca de 300 lugares vazios, mas as vendedoras preferem fazer o negócio lá fora, onde produzem muito lixo", afirma.
Quanto à higienização do espaço, refere que a administração do mercado tem garantido campanhas de limpeza diárias e que, aos domingos, o mercado não abre as portas para a venda, mas só para a limpeza geral.
Em contrapartida, as comerciantes apontam a falta de espaço e a fraca clientela no interior do mercado oficial como as principais razões que motivam o comércio na rua.
Engrácia João, vendedora de carne há 12 anos no mercado informal, diz ser mais rentável vender na rua do que dentro do mercado oficial.
"Dentro do mercado, podes passar todo o dia sem vender nada, mas aqui fora já dá para levar o “pão de cada dia” a casa", afirma a vendedora.
No mesmo espaço comercial, também está a vendedora do famoso peixe lambula/sardinha, Adelina Domingos, que partilha a opinião e denuncia que, quando tentam entrar no mercado, são enxotadas pelas outras vendedoras.
Conforme a mesma, muitas vezes já foi retirada do mercado 1.° D’Agosto pelos seus proprietários e outras vendedoras, por estar a vender peixe lambula, alegando o mau cheiro desse produto.
Apesar desse conflito entre as vendedoras, afirma, todas as comerciantes desse espaço pagam, diariamente, 100 Kwanzas aos fiscais da Administração do Mercado do Catinton, facto que reforça a permanência delas no local.
A Angop tentou contactar a administração do mercado, para falar sobre os projectos e confirmar as denúncias, mas sem sucesso.
Mercado do Kicolo
A par do Catinton, o mercado do Kicolo, um dos mais frequentados em Luanda, não foge à regra, com os produtos a serem vendidos no meio do lixo, da lama e água parada.
Tal como no Catinton, no Kicolo (Cacuaco) há dois mercados a "coabitarem" o mesmo espaço, separados apenas por uma rua lamacenta e esburacada, na época chuvosa, e empoeirada no tempo seco.
No sentido Hoje-ya-Henda (Cazenga)/Kicolo (Cacuaco), está encravado o famoso mercado do "Panga-Panga", enquanto do outro lado o Kicolo.
No mercado do Kicolo, é visível a intenção de melhorias das condições higiénicas, apesar da resistência da venda paralela/informal, facto que tem beliscado a higienização do espaço.
Segundo o seu administrador, Manuel Paulo, o espaço tem sete naves de cobertura, das quais maior parte montada na área de venda de materiais de construção civil, em vez de proteger os alimentos.
Sobre esse contraste, diz que a administração está a trabalhar para a requalificação do mercado, com vista à instalação de novas naves, para reforçar a protecção e a higienização dos produtos alimentares.
Assegura que o mercado tem beneficiado de duas secções de limpeza/dia, no período matinal e nocturno, reservando o domingo apenas para uma limpeza geral.
As vendedoras do interior do mercado acusam as outras que vendem os mesmos produtos fora do espaço definido de serem as mais beneficiadas, por ficarem com quase todos os clientes.
Carolina Luís, comerciante de carne no Kicolo desde 2008, diz que a venda lateral nesse mercado tem absorvido maior parte dos clientes, por ser o primeiro a ter contacto directo com consumidores, deixando quem vende no interior do mesmo sem clientela.
Perante esse dilema, a vendedora solicita a pronta intervenção da administração do mercado ou de autoridades do município, no sentido de se insistir na retirada dessas comerciantes de locais inapropriados, sob pena de se perpetuar essa prática.
Quem também se sente prejudicada pela prática é a comerciante Santa José, que não tem tido o rendimento desejável no seu negócio de congelados (frango e suas coxas), por causa da venda paralela de outras vendedoras, que insistem com o comércio informal.
A vendedora do mercado desde os 14 anos de idade (tem 27) afirma que essa prática vigora há muito, mesmo algumas vezes com a intervenção da administração.
Aponta a não-cobrança do valor da ficha diária (150 kwanzas) às vendedoras de rua como uma das medidas que devem ser adoptadas para desencorajar essa prática.
Para além da falta de cobertura e vedação do mercado, a ausência de iluminação nas bancadas e algumas naves, para a venda nocturna, também constitui outra preocupação.
Em resposta às preocupações das comerciantes, Manuel Paulo (administrador do mercado) reafirma a necessidade de se continuar a requalificar o mercado, para resolver os vários problemas.
Mercado do KM 30 (Viana)
O mercado do KM 30, em Viana, é um dos maiores espaços comerciais de Luanda a céu aberto, que tem registado melhorias significativas na higienização e organização dos comerciantes, apesar de ainda ocorrerem lacunas nalgumas áreas.
Tido como o epicentro do elevado índice de contaminação de febre-amarela em Luanda, no ano 2016, o KM 30 tem intensificado as suas campanhas de limpeza diária, com duas equipas que dividem o trabalho em dois turnos (manhã e tarde).
De acordo com a administradora-adjunta desse mercado, Ester Clematite, com esse trabalho quase não é visível o lixo ao redor dos produtos vendidos no mercado, principalmente aos alimentos comercializados em bancadas construídas nas naves.
Engrácia Alberto, comerciante de peixe seco e carne seca há nove anos no KM 30, dá nota positiva ao trabalho desenvolvido pelas equipas de limpeza.
Eva Manuel, vendedora de fuba há 12 anos, aponta o diálogo permanente entre os comerciantes e a administração do mercado como veículo que tem sido importante para manter o espaço higienizado.
Contrariamente à área organizada com naves, bancadas e arruamentos, a zona de venda de verduras e legumes, como rama, couve, repolho, kizaca, jimboa, tomate, cenoura e cebola é a mais crítica, principalmente nessa época chuvosa.
No tempo chuvoso, o acesso a essa zona muitas vezes é feito com recurso às galochas (botas de borracha), para enfrentar lixo, lama e água parada.
Para minimizar essa situação, a administração já começou com o processo de requalificação do mercado, com a montagem de novas naves e bancadas.
Outra “dor de cabeça” dos comerciantes e consumidores do KM 30 é o mau estado da principal via de acesso ao mercado, que apresenta muitos buracos, lama e água parada quando chove, o que tem dificultado a circulação de viaturas e peões nesse troço.
A par do mau estado da via, está também o fraco saneamento básico nalguns matadores desse mercado, onde a carne é vendida a céu aberto, e os animais e comerciantes partilham o espaço.
Abstinência a carne
Nesse momento de incerteza sobre a real origem do coronavírus, o nutricionista José Nguepe aponta a abstinência ao consumo da carne de animais duvidosos como uma das melhores formas de prevenção.
Adverte que o país ainda não possui um sistema de segurança eficaz, que permite aferir a pureza da carne vendida nos mercados, pelo que encoraja a prevenção da sociedade.
"Nesse momento de turbulência, a melhor forma de se prevenir de doenças como o coronavírus é abster-se dos alimentos de origem animal duvidosa ou aferir bem a autenticidade da saúde do animal a ser abatido para o consumo", acrescenta.
O também naturopata apela aos cidadãos para aferirem rigorosamente a idoneidade dos matadouros e as condições em que são preparados os animais para serem abatidos.
Reforça, também, o apelo da lavagem dos alimentos com água tratada ou desinfectada com gotas de limão, assim como o uso do alho na confecção dos alimentos, por ser um antiviral fundamental para ajudar a prevenir possíveis infecções.
Além das medidas tomadas pelo Governo angolano, o epidemiologista Domingos Francisco advoga a realização de campanhas de limpeza colectivas nos mercados a céu aberto, com vista a afastar a hipótese de entrada de epidemias como o coronavírus.
Para o especialista, as medidas de prevenção e combate de certas epidemias passam, essencialmente, pela reeducação da população, que deve manter higienizados os alimentos e lavar, constantemente, as mãos com água e sabão azul.
Apela ao Governo para reforçar o sistema de vigilância epidemiológica, com o uso das medidas preventivas, enquanto os vendedores devem primar pela higienização dos mercados e os consumidores comprarem os alimentos em lugares mais seguros.
Para mudar o actual quadro dos mercados a céu aberto, o também chefe de secção do Departamento de Vigilância Epidemiológica e Higiene em Cacuaco sugere a transmissão de conhecimento sobre as desvantagens e consequências que podem advir da venda de produtos nesses espaços comerciais.
Esse conhecimento, afirma, pode ser transmitido através de palestras e sensibilização constante da população, começando pelo seio familiar.
Domingos Cristóvão, especialista em Saúde Pública, aconselha os consumidores a comprarem os bens alimentares em locais apropriados como talhos, peixarias e supermercados, por serem estabelecimentos que têm recebido inspecções periódicas.
"Não se recomenda a compra de produtos expostos ao ar livre, sobretudo os alimentos que não são submetidos a uma temperatura de 100 graus célsius", adverte o também director do gabinete da bastonária da Ordem dos Médicos de Angola.
Ainda assim, há quem ignore os apelos, expondo-se a riscos permanentemente.
É o caso de Antonieta Salvador, cliente do mercado do Catinton, que justifica a compra de bens alimentares nesses locais por oferecerem preços mais acessíveis ao seu bolso, tendo em conta que o seu rendimento mensal não lhe possibilita fazer compras nos supermercados.
"Estou consciente do risco que posso correr em comprar produtos no mercado informal, mas, às vezes, fico sem poder de compra para o supermercado. A única alternativa é mesmo o mercado paralelo", diz.
Esta parece ser a visão de muitos clientes dos mercados a céu aberto, que buscam por baixos preços, expondo-se, muitas vezes, a riscos de contaminação de doenças capazes de acabar em morte.
Diante de um cenário de ameaça mundial, por causa da letalidade do coronavírus, os cuidados de saúde e higienização tornam-se fulcrais, para diminuir o risco de contaminação.
À semelhança de outros Estados, Angola tem vindo a adoptar esses cuidados preventivos, nos aeroportos e nas fronteiras, mas o caminho ainda é longo, o desafio é grande e os riscos são altíssimos.
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