Numa ronda efectuada pela Angop, segunda-feira, ao Centro de Hemodiálise do Hospital Municipal de Benguela, que alberga doentes oriundos das referidas províncias do sul de Angola, constatou-se o confinamento de doentes com doença renal no pátio dessa unidade sanitária, por falta de condições financeiras para arrendamento de residências.

Segundo Americano do Nascimento, doente renal que falou em nome do grupo e que recebe assistência médica há cinco anos nessa unidade sanitária, a situação dos pacientes que abandonaram as suas zonas de origem para se tratarem em Benguela é penosa.

Referiu que quem tem boa condição financeira consegue arrendar moradia e adquirir medicamentos, ao passo que aos de menor recursos só lhes resta abrigarem-se no pátio do hospital e contar com a benevolência de pessoas singulares ou de instituições de caridade.

Destacou a situação de uma família proveniente da província do Namibe, em que mãe e filho padecem de insuficiência renal e são submetidos a terapia três vezes por semana no Centro de Hemodiálise de Benguela.

“É triste, essa família enfrenta dificuldades de alimentação, aquisição de medicamentos essenciais e de locomoção”, reportou.

Lourdes Freitas abandonou a cidade do Lubango em 2016 para acompanhar o marido que sofre de insuficiência renal à cidade de Benguela. A cidadã qualificou o seu dia-a-dia com sendo um “calvário”, longe da convivência familiar e sem as mínimas condições sociais em terra “alheia” para proporcionar assistência condigna ao doente.

Emocional e psicologicamente fragilizada, reconheceu o esforço dos responsáveis do centro que tudo fazem para salvaguardar a vida dos 63 doentes que foram obrigados a mudar de província por falta de tratamento adequado nas suas áreas de origem.

Apontou como seu maior desejo regressar a casa, uma vez que em Benguela considera que se tornaram “mendigos”.

Revelou terem endereçado recentemente uma carta ao Presidente da República, João Lourenço, assinada pelos doentes que clamam pela entrada em funcionamento de um centro de hemodiálise na província da Huíla, cuja assistência seria extensiva aos pacientes das três províncias daquela região mais a sul do país.

“Como resposta, o PR manifestou, através de uma missiva, estar sensível com a situação, tendo prometido resolver o problema o mais breve possível, com vista a reduzir os gastos no tratamento dessa doença aos pacientes dessas províncias, uma vez existir já um centro na cidade do Lubango que aguarda apenas pelo apetrechamento e de técnicos para entrar em funcionamento”, contou.

Apelou à sensibilidade do Executivo angolano de forma a garantir a sobrevivência dos doentes, fundamentalmente daquelas circunscrições, e reduzir o encargo financeiro e desgaste emocional no tratamento desta doença crónica.

Já Maria de Fátima, doente renal de 57 anos de idade proveniente da província do Namibe, disse ter deixado o convívio dos parentes há um ano para beneficiar de tratamento de hemodiálise em Benguela, devido a ausência desses serviços naquela cidade, situação que tem contribuído para degradação económica e social da sua família.

Acompanhada pelo filho, Maria de Fátima emocionou-se ao falar do seu descendente que largou os estudos na Faculdade de Ciências e perdeu o emprego para ficar junto da mãe.

Apontou como outros embaraços, a falta de valores para pagamento da  renda da casa, compra de medicamentos e, principalmente, da bolsa de sangue, em que os doadores cobram 15 mil kwanzas cada, toda vez que é acometida de anemia.

Entretanto, o responsável do Centro de Hemodiálise do Hospital Municipal de Benguela, Benjamim Kimiz, considerou oportuna a eventual abertura desses serviços na província da Huíla, para assegurar a assistência aos pacientes ali residentes e nas províncias vizinhas.

Realçou que, das 18 províncias do país, apenas quatro contam com acentro de hemodiálise, nomeadamente Luanda, Benguela, Malanje e Huambo.

Fez saber que a incidência de doença renal é de cem doentes por um milhão de habitantes.

Benjamim Kimiz informou que dos 126 pacientes do Centro de Hemodiálise de Benguela, 63 são oriundos das províncias da Huíla, Namibe, Cunene e Cuanza Sul, e apresentam inúmeras dificuldades como resultado da movimentação de uma localidade para outra, situação agravada pela custo de vida a que estão sujeitos.

O responsável referiu serem criteriosas as dietas reservadas aos doentes renais e que devem ter acompanhamento familiar, devido as alterações psicológicas e clínicas a que estão sujeitos.

Admitiu que os doentes sem família e recursos financeiros ficam ao relento no interior do pátio hospitalar a mercê de donativos.

“Os doentes chegam aqui desinformados quanto ao tempo do tratamento, julgando que serão submetidos por um período de dois ou três meses, mas após serem diagnosticados com insuficiência renal crónica, para sobreviverem, são submetidos a sessões de hemodiálise três vezes por semana e pelo resto da vida”, sublinhou.

Ressaltou que a terapia de eleição para a insuficiência renal seria o transplante do rim, mas infelizmente essa opção ainda carece de aprovação de legislação específica.

“Nos países desenvolvidos, a hemodiálise serve apenas como tratamento transitório, para manter o doente enquanto aguarda na lista de receptores de rim até ao transplante”, frisou.

Salientou que em Angola usa-se hemodiálise como tratamento definitivo em substituição da função renal, que seria temporário se houvesse transplante.

Em consequências dessas debilidades, precisou, o Centro de Hemodiálise de Benguela registou oito óbitos no período compreendido entre Janeiro e Setembro de 2018, resultante da insuficiência renal crónica, enquanto outros 126 doentes recebem assistência médica, apesar das dificuldades para aquisição de fármacos.

Deu a conhecer que comparativamente ao mesmo período de 2017, o centro teve uma redução de 12 mortes.

Benjamim Kimiz apontou ainda a falta de fármacos como a “Darbepoetina”, medicamento com custos elevados e determinante no tratamento dos doentes com insuficiência renal e cancro, pois ajuda na produção de glóbulos vermelhos, como outro problema para os doentes.

Reconheceu que a falta de um banco de sangue estável também tem prejudicado os pacientes, pois, para aqueles cujos parentes sejam compatíveis a situação está minimizada, enquanto os que não os têm são obrigados a comprar bolsas de sangue a 15 mil kwanzas cada aos doadores voluntários.

“São inúmeros os obstáculos para o normal funcionamento do centro, uma vez que 95 porcento do material utilizado é importado e ainda há embaraços na aquisição de divisas para importá-los e regularizar os pagamentos. Estamos a trabalhar com o que temos e não como pretendíamos”, concluiu.