Ao pedir na segunda-feira para erradicar o vírus de forma "decisiva", Xi mobilizou-se contra a epidemia, um mês após o aparecimento dos primeiros casos num país acostumado a esconder os seus problemas debaixo do tapete.

O coronavírus aparece como uma nova pedra no sapato do poder comunista, já tocado por mais de sete meses de manifestações em Hong Kong, pelas críticas no exterior à sua política contra as minorias muçulmanas e, principalmente, pela guerra comercial com Washington, o que fragilizou  asua economia.

"A confirmação por Xi Jinping da propagação do novo vírus mostra que a situação é muito grave", afirmou Larry Ong, da consultoria SinoInsider, com sede nos Estados Unidos.

Pelo menos 17 pessoas morreram na China na sequência do novo coronavírus que já infetou cerca de 600 pessoas Os moradores de Ezhou e Huanggang, localidades com vários milhões de habitantes nos arredores de Wuhan, cidade epicentro dos contágios, foram instruídos esta quinta-feira a não deixar a cidade. Os transportes públicos estão temporariamente suspensos nas três regiões. Há, portanto, três cidades em quarentena na China por causa deste novo surto. A primeira a adotar a medida foi Wuhan.

- O coração da economia -

As exportações chinesas, um dos pilares da economia do gigante asiático, têm sofrido uma guerra comercial com os Estados Unidos. Além disso, o crescimento chinês foi o mais baixo em 30 anos no ano passado (+6,1%), e agora Pequim conta com o consumo interno para sustentar sua economia.

No entanto, com o vírus, "é o coração do crescimento económico que pode ser afetado", alerta Mary-Françoise Renard, professora e chefe do Instituto de Pesquisa em Economia da China (Idrec), com sede na França.

"E isso ocorre, porque as pessoas consomem menos. Não querem mais se deslocar para restaurantes, ou locais públicos", e o turismo pode ser afetado, segundo a especialista.

Em 2002-2003, durante a pandemia da SARS (Síndrome Respiratória Aguda Severa), um vírus da mesma família que fez 774 mortos em todo mundo, dos quais 349 na China continental, a desaceleração económica foi temporária. E o gigante asiático registou em 2003 um crescimento de 10%, graças a uma rápida recuperação das suas exportações.

Hoje, "a situação económica é mais difícil", afirma Mary-Françoise Renard. Antes mera "fábrica do mundo", a China de hoje é uma potência global, portanto, "uma grave epidemia seria terrível" para o país, alerta Larry Ong, do SinoInsider.

Na época da SARS, a Organização Mundial da Saúde (OMS) criticou as autoridades chinesas por terem demorado a dar o alerta e tentado esconder a magnitude da epidemia.

Para a sua imagem e credibilidade no cenário internacional, Pequim "sabe que isso não pode acontecer novamente", destaca Anne-Marie Brady, especialista em política chinesa na Universidade de Canterbury.

- "O salvador" -

Enquanto o líder chinês dava as suas instruções na segunda-feira, os média acompanhavam o crescente número de contaminações em todo país.

No final de dezembro, os mesmos média descreveram como "rumores" os primeiros testemunhos sobre casos suspeitos em Wuhan, a grande cidade considerada hoje foco da epidemia. Inicialmente, "as autoridades locais provavelmente tentaram esconder a existência da doença" e não informaram o poder central da realidade da situação, estima Larry Ong.

Quando as informações não puderam mais ser ocultadas, "e a situação piorou", Pequim começou a comunicar sobre o vírus, considerou Ong. Desta forma, o poder comunista quis aparecer como o "salvador" diante da população e cultivar no exterior a imagem de uma China responsável que controla a situação, acrescentou.

"A intervenção de Xi Jinping foi decisiva", afirma Dali Yang, professor de Ciência Política da Universidade de Chicago. "E, se a epidemia for controlada dentro de um prazo razoável, ganhará credibilidade", completou.

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