Vivemos o tempo da pandemia de COVID-19, onde o risco de morte é maior nos idosos e/ou naqueles doentes que tenham determinadas doenças associadas, como a diabetes, a hipertensão arterial, as doenças pulmonares ou neoplásicas e, dizemos aqui, a hipertensão pulmonar.

A Hipertensão Pulmonar é uma doença rara que se caracteriza por alterações dos vasos dos pulmões que levam a uma  pressão de sangue  elevada da artéria pulmonar (superior, em média, a 20 mmhg). Pode não ter causa conhecida, designando-se idiopática, ou pode estar associada a doenças cardíacas ,pulmonares ou  reumáticas , à infeção por VIH ou a medicamentos para a obesidade.

A hipertensão pulmonar não tem sintomas específicos, sendo que aqueles que os doentes referem, nomeadamente falta de ar (dispneia), cansaço fácil, edemas dos membros inferiores, tonturas ou perda de consciência, são comuns a muitas doenças, principalmente cardíacas e respiratórias.

Por essa razão, o médico assistente deve pedir um conjunto de análises e exames para avaliar se o doente terá hipertensão pulmonar, entre os quais, os mais importantes são o eletrocardiograma, a radiografia de tórax  e o ecocardiograma, que é fundamental, pois de forma imediata indica a pressão sistólica na artéria pulmonar, permitindo, assim, perceber se há complicações no coração.

No caso dos doentes de grupos de risco, com doenças reumáticas ou do tecido conjuntivo, como o lúpus, com doenças cardíacas congénitas ou com história familiar de hipertensão pulmonar, estes exames e análises devem ser efetuados de rotina e de forma preventiva.

Quando o médico de família, ou outro médico assistente, diagnostica, através dos exames e das análises, a possibilidade de o doente ter hipertensão pulmonar, o doente deve ser encaminhado para uma consulta especializada desta doença, na qual o diagnóstico é confirmado e a situação clinica do doente é avaliada da melhor forma, procurando a causa especifica da doença e definindo os  tratamentos adequados.

Para tal, são efetuados exames, como o cateterismo direito, para avaliar de forma precisa a pressão da artéria pulmonar, a coronariografia, para definir se há doença das artérias coronárias, a tomografia do tórax com contraste (angio-tac ), para avaliar se há coágulos /trombos a obstruir as artérias pulmonares, provas de função respiratória, entre outros.

Até há cerca de 20 anos, a hipertensão pulmonar era uma doença associada a uma elevada taxa de mortalidade mas, desde essa altura, tem aparecido um conjunto de tratamentos que tem melhorado muito o prognóstico desta doença e também a qualidade de vida dos doentes. Neste sentido, após o diagnóstico, o doente deve manter uma atividade física regular, prevenir as infeções, tomar as vacinas, usar medicamentos de apoio geral, como o oxigénio e diuréticos, e, no caso das mulheres, fazer controlo da natalidade, de forma a evitar uma gravidez.

Apesar de ainda não existir cura, os medicamentos atuais permitem uma vida longa e, em geral, com qualidade e, por essa razão, quanto mais cedo a doença for conhecida e tratada, melhores serão os resultados. Os medicamentos usados para tratar a hipertensão pulmonar são vasodilatadores, responsáveis por  diminuir a pressão elevada nas artérias pulmonares e melhorar as condições de funcionamento do coração, dos quais podemos distinguir três grupos diferentes: antagonistas da endotelina, fármacos que atuam sobre o óxido nítrico e análogos da prostaciclina.

Estes podem ser usados isoladamente ou em conjunto e podem ser administrados sob forma oral, subcutânea, endovenosa ou inalados. No entanto, quando estas terapêuticas não conseguem controlar a doença, pode ser considerada a indicação para o transplante pulmonar.

Há, ainda, uma forma da doença, denominada tromboembolismo pulmonar crónico, em que as artérias pulmonares ficam obstruídas por coágulos, provocando, assim, o aparecimento de hipertensão pulmonar. Nestes casos, os doentes tiveram, anos antes do surgimento da hipertensão pulmonar, uma embolia pulmonar, que às vezes pode ocorrer sem sintomas, e vão progressivamente ficando sintomáticos.

Esta forma de hipertensão pulmonar é preferencialmente tratada através de uma operação, a tromboendarterectomia pulmonar, através da qual se removem os coágulos, com muito bom resultado clinico para os doentes. Quando não é possível operar estes doentes, pode ser efetuada a angioplastia pulmonar, que vai desobstruir os coágulos, ou podem ser usados medicamentos vasodilatadores.

Enquanto profissional de saúde, espero que esta exposição tenha dado a conhecer esta doença rara, que é a Hipertensão Pulmonar, e que sensibilize as pessoas para, perante os sintomas mais comuns, irem ao médico assistente, de forma a realizarem um diagnóstico correto e atempado que permita identificar uma terapêutica que proporcione uma vida longa e com qualidade.

Um artigo do médico cardiologista Nuno Lousada, Coordenador do Centro de Hipertensão Pulmonar do CHULN – Serviço de Cardiologia.

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