Na condição de seropositivas, muitas pessoas temem procurar ajuda e acabam afastadas dos programas sociais, contribuindo para o crescimento da taxa de contaminação.

Por medo de suportar as críticas e o "julgamento popular", cidadãos há que preferem morrer na dúvida, a ter de submeter-se a testes regulares de rotina.

Os números e as estatísticas oficiais apontam para melhorias no nível de consciencialização da sociedade, em relação à perigosidade do VIH/SIDA.

Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) indicam que 12,1% das mulheres e 31,1% dos homens (entre os jovens de 15-24 anos) em Angola têm hoje noção básica sobre VIH/SIDA.

Todavia, nem isso faz reduzir o estigma social.

O problema da estigmatização já se torna um "fardo" para milhares de seropositivos.

O silêncio e a amargura continuam a ser o "prato do dia" de quem, "tomado" por uma doença sem cura, enfrenta barreiras no trabalho, na rua e até na família.

A demissão do emprego, proibição de frequentar alguns locais públicos, desprezo, omissão no atendimento médico, abandono da família e amigos são alguns dos obstáculos por que passam aqueles que "cruzaram o caminho" do vírus do VIH.

Rita Kiwaya (nome fictício), 38 anos de idade, empregada doméstica, domina bem essa realidade. Desde que conheceu a condição de seropositiva, convive com o estigma de vizinhos e familiares.

A jovem, uma das personagens da reportagem sobre o Dia Mundial de Luta Contra a SIDA (1 de Dezembro), conta, num tom dramático, que foi por via sexual que contraiu o vírus.

A contaminação veio do marido, já falecido, que sofria da epidemia havia já alguns anos.

Apesar de saber da doença de que era portador, nunca havia contado. Rita só descobriu o seu estado em 2006. Hoje, faz consultas periódicas no Hospital Esperança, enquanto mais de 22% dos pacientes controlados no país abandonam o tratamento à base de anti-retrovirais.

Rita é só uma pequena amostra do vasto universo de portadores de VIH/Sida em Angola, que conhece uma taxa de seroprevalência na ordem dos 2.1%.

João Victor (fictício) é funcionário público e vive com o vírus do VIH há 10  anos. Só se apercebeu da contaminação quando a esposa foi à consulta pré-natal e fez o teste.

"Foi muito difícil para nós, depois de receber o resultado. Desde então, fazemos acompanhamento médico. Só lembro que sou portador quando venho à consulta".

O paciente não sabe como contraiu a doença, mas adianta que, para não ser vítima de estigma no local de trabalho, prefere omitir esta realidade.

Pelo mesmo "calvário" passa Malanda Joaquim (fictício), doméstica, que descobriu o seu estado em 2007, altura em que a sua vida entrou em quase “queda livre”.

O VIH trouxe  para a paciente a consciência de que, pior que seja uma doença, a valorização e aceitação são as primeiras condições a levar em conta.

"Fui a responsável pela transmissão da doença ao meu parceiro. Contraí no relacionamento anterior. Quando descobri que era seropositiva, senti um desespero e medo". Porém, de forma surpreendente, tive apoio da sua família e amigos".

O estigma e a discriminação ainda são problemas sérios e estão longe de ser estancados.

Segundo a socióloga Simone Miguel, o que se verifica é que, havendo a identificação da luta contra o VIH, enfrentar o preconceito, a discriminação e o abandono gera problemas psicológicos. "A exclusão é o maior causador da morte e não a doença".

Taxa na ordem de 21 porcento

Angola controla pelo menos 124 mil e 620 pessoas com VIH, segundo dados oficiais.

Só no período de 2004 a 2016, a taxa de prevalência foi de 2%, uma das mais baixas de a nível da região da África Austral.

Desta cifra, 69 mil infectados estão em tratamento, ou seja uma margem de 48%.

Do total estimado, 21 mil 897 são grávidas, sendo que 11 mil e 997 delas faleceu.

A pesquisa concluiu que, no geral, prevalece certa falta de conhecimento da doença, concretamente no que diz respeito às formas de contágio, prevenção e tratamento.

Segundo o Instituto Nacional de Luta Contra a Sida, o factor que leva ao crescimento da epidemia no país é a falta de comportamento sexual, processo económico e a pobreza, que é um dilema muito acentuado, principalmente entre os jovens.

As localidades  do país com as maiores taxas de seroprevalência e de contaminação são as zonas fronteiriças, com incidência na província do Cunene, com uma prevalência de 6.1%, e do Cuando Cubango, por terem um grande fluxo de população.

Os níveis da taxa de infecção por VIH, em Angola, levam a sociedade a aumentar a reflexão à volta dos métodos de prevenção da doença.

Para reduzir o impacto da contaminação, o Executivo leva a cabo, desde 2005, um Programa de Corte da Transmissão Vertical (para evitar a transmissão da mãe para o bebé), que teve a adesão de pelo menos 21 mil e 897 gestantes.

O programa abrange mulheres com VIH/SIDA, que são assistidas por médicos de ginecologia e obstetrícia que asseguram o parto, na Maternidade Lucrécia Paím.

Actualmente, um dos desafios do país, por via do Instituto de Luta Contra a Sida, é trabalhar para melhorar em termos de recursos humanos.

Outro problema é a adesão. Muitas gestantes procuram os serviços só durante a consulta, mas na altura do parto preferem fazer em casa.

Essa prática conduz a pessoa ao risco de transmitir o vírus à criança.

Tendo um parto domiciliar, a gestante não tem o benefício de tomar a medicação que é a preparação para se fazer o corte vertical e consequentemente o bebé será infectado e possivelmente as pessoas que estão envolvidas no parto.

Reflexão

Com esse quadro, a sociedade busca soluções alternativas para fugir do vírus do VIH.

Segundo o funcionário público Francisco Pedro, a prevenção do VIH é importante, porque ajuda a evitar situações que podem pôr em perigo a vida.

"Uma das minhas formas de prevenção é o uso da camisinha, apesar de reconhecer que o melhor método preventivo é a fidelidade ou abstinência".

Já Daniel da Gama, director financeiro da empresa Santibraga, considera necessário que todos deixem de viver de forma promíscua, evitando relações extraconjugais e, com isso, assumirem o seu verdadeiro papel, para se construírem famílias saudáveis.

Para si, as escolas precisam de ministrar conteúdos ligados à prevenção no acto sexual, no sentido de despertar precocemente a juventude sobre o assunto em questão.

Recomenda que a população saiba o seu estado serológico, para evitar que se caia numa crise e se esteja num estado tardio da infecção.

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