Um mês após a primeira morte por COVID-19 registada em Portugal, em 16 de março, 14 dias depois da confirmação do primeiro caso, registaram-se 599 mortes atribuídas à doença provocada pelo novo coronavírus, equivalente a 3,3% dos 18.051 casos confirmados à data e correspondendo a uma incidência cumulativa de cerca de 176 casos por 100.000 habitantes e uma letalidade de 3,3%.

O estudo da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) analisou o excesso de mortalidade em Portugal entre 16 de março e 14 de abril com base nos registos de mortalidade diária dos últimos 10 anos, comparando a mortalidade observada com a esperada, usando intervalos de confiança de dois desvios padrão.

“Os meses de março e abril são, normalmente, meses com mortalidade mais baixa do que os meses anteriores, mas em 2020 nota-se uma inversão dessa norma a partir de 11 de março, passando a registar-se um excesso de óbitos acima da média dos 10 anos anteriores”, refere o estudo.

Neste período, “registaram-se mais 1.255 óbitos do que seria de esperar com base na mortalidade média diária dos últimos 10 anos, ultrapassando mesmo o limiar da média mais dois desvios padrão [DP], a partir de 24 de março de 2020”.

O excesso de mortalidade afetou de “forma desproporcionada” os maiores de 75 anos, com mais 1.030 óbitos do que o expectável, sendo que nas pessoas com idades entre os 65 e os 74 anos foram apenas mais 67.

“O número de óbitos de pessoas com mais de 75 anos ultrapassou em 11 dias o limite da média dos últimos seis anos mais 2DP”, observa a análise, apontando a alteração do padrão de acompanhamento e da resposta a esta população, mais vulnerável e com doença crónica, como causa possível para este excesso de mortalidade não relacionada com a COVID-19.

Os investigadores sublinham que, mesmo subtraindo ao número de óbitos por causa natural os causados por covid-19, continua a observar-se “um excesso de mortalidade acima do limiar da média de óbitos dos seis últimos anos mais dois 2DP”.

Relativamente aos óbitos que se estimaram para uma situação em que não houvesse epidemia, registou-se um excesso de 1.214 óbitos, refere o estudo, indicando que 599 destes óbitos foram registados como COVID-19 e os outros 615 (51%) por outras doenças.

Observou-se ainda um número de mortes por causas externas (que inclui acidentes de viação) inferior ao que seria de esperar com base nas médias dos últimos 10 anos.

Os investigadores apontam como explicação para esta redução as “severas limitações à mobilidade viária impostas pelas autoridades, no atual contexto da pandemia”.

“Este facto sugere que o excesso de mortalidade durante o mês de COVID-19 teria sido ainda maior se não tivessem quase desaparecido os óbitos por causa externa associados com a mobilidade das pessoas”, salientam.

Na segunda semana de abril, já parece haver uma descida da mortalidade observada, compatível com um efeito das medidas de distanciamento social tomadas pelas autoridades desde meados de março e da alta adesão da população portuguesa a essas medidas.

A ENSP ressalva que as estimativas apresentadas no estudo “são conservadoras”, uma vez que uma parte dos óbitos por COVID-19 terão passado sem diagnóstico por falta de diagnóstico laboratorial”.

“Muitas pessoas terão falecido em casa ou em instituições de cuidados continuados antes de poderem ter sido testadas para a presença do vírus”, exemplifica.

Também são conservadoras porque “os óbitos esperados são influenciados pelos óbitos dos anos anteriores, e fevereiro e o início março de 2020 registaram mortalidades inferiores às dos anos anteriores”, e pelo “quase desaparecimento dos óbitos por causas externas”, nomeadamente os acidentes de viação.

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