Guardado a “sete chaves”, odiado, amado, visto como veículo do demónio e simultaneamente como criação divina, o café é, sem dúvida, uma bebida à qual não se consegue ficar indiferente. Desde a sua origem na Abissínia (atual Etiópia, em África), envolta em lendas, até à sua expansão mundo fora, esta pequena planta conheceu séculos de disputas pela sua posse.

Os árabes diziam-no seu, os venezianos ensinaram a Europa a bebe-lo, os espanhóis, portugueses, holandeses e franceses carregaram-no nas caravelas rumo a novos continentes. Em pouco mais de dois séculos o café tornou-se património de quase toda a humanidade.

Mergulham bem fundo no tempo as primeiras referências ao café, confundido-se com os factos históricos, as lendas e mitos mais nebulosos.

Há contudo uma história recorrente sempre que se alude à origem desta bebida. É a narrativa de Kaldi, um guardador de cabras da Abissínia, em África, que terá notado certo dia uma estranha agitação das suas cabras, após ingerirem as bagas vermelhas de uma planta.

Corajosamente, Kaldi experimentou igualmente estes bagos, sentindo-se leve e vigoroso. Foi ter então com um abade de um mosteiro próximo que, convicto da intervenção do demónio, atirou-os para a lareira. Logo se desprendeu das chamas um agradável aroma. O abade acreditou então na criação Divina da planta.

Assim conta a lenda, perdendo-se no esquecimento do tempo a descoberta e utilização do café. Hoje bebemo-lo. No território de onde é proveniente, a Abissínia, era comido. No século X, as tribos nómadas, enfeitiçadas pelas propriedades estimulantes do café, ingeriam-no em pequenos bolos, misturado com gordura animal.

Café: “Escuro como o inferno, forte como a morte e doce como o amor”
Imagem ilustrativa do pastor abissínio Kaldi e a lenda das cabras inebriadas com o sabor do café.

Só mais tarde o café começa a ser bebido. Os bagos eram então submersos em água fria, deixando-os assentar antes de ser bebida.

Com a descoberta da fervura da água os árabes começaram a ingerir o café como uma bebida quente. Ciosos da sua descoberta cuidaram de a salvaguardar dos oportunistas. De tal ordem que antes de 1650, os únicos europeus que haviam bebido café eram apenas aqueles que tinham viajado pelo estrangeiro.

No século XIII, o café era parte integrante no quotidiano árabe. Os cafés enquanto estabelecimento já proliferavam, antes do seu consumo se generalizar aos lares. Eram os Qahveh Khaneh, locais animados, onde se jogava, se ouvia música. Ponto de encontro para homens de negócios, políticos, comerciantes e até filósofos. Só no século XVIII a Europa veria introduzir o hábito de frequentar cafés.

Café: “Escuro como o inferno, forte como a morte e doce como o amor”
Desde a sua origem na Abissínia (atual Etiópia, em África), envolta em lendas, até à sua expansão mundo fora, esta pequena planta conheceu séculos de disputas pela sua posse.

Aos poucos peregrinos contrabandeavam os grãos de café, permitindo que este começa-se, insipidamente, a proliferar Mundo fora.

As viagens começaram a banalizar-se. O Mundo antigo, fechado, contactava finalmente através de trocas comerciais. O café saía da Arábia para a Turquia e desta para a Europa.

Era na altura aí conhecido como “vinho da arábia”. Isto porque o vocábulo árabe qahwe (“comida vegetal”), era utilizado para designar todas as bebidas provenientes de plantas, incluindo o vinho.

A primeira entrega de café chegou a Veneza, vinda da Turquia, em 1615. Foram os venezianos que ensinaram a Europa a beber café. Quatro foram as condições estabelecidas pelos venétos: “Doce como o amor, puro como um anjo, negro como o Demónio e quente como o Inferno”. A bebida passou nas quatro provas e depressa se disseminou no Velho Continente.

O café impõe-se na Europa

Roma colocou entraves ao café. Apregoava-se o demónio que se escondia na bebida. Na verdade, lutava o clero com uma dúvida teológica-moral. Seria lícito aos cristãos beberem uma bebida maometana. Chamado o Papa Clemente III a veredicto, bastou um pequeno gole para o café ser aprovado e abençoado. Como resistir a tão deliciosa substância.

 Café: “Escuro como o inferno, forte como a morte e doce como o amor”
Mercadores de café na antiguidade.

Continuava o café a sua caminhada pela Europa. Chegou ainda no século XVII a Inglaterra, introduzido por um bispo ortodoxo grego de Esmirna, durante a sua visita a Oxford. Em 1650 é aberto um café naquela localidade. Os estudantes gostaram e recomendaram. Em breve tornava-se a sua bebida de eleição, especialmente em épocas de exames, passando a proliferar os estabelecimentos. Em 1699 os ingleses haviam-se tornado os maiores consumidores de café do mundo ocidental.

Depressa o café atravessou o Canal da Mancha chegando a França onde ganhou empedernidos defensores. Um deles foi o intelectual Voltaire. Certa vez, admoestado por um abade que lhe dizia ser o café um dos piores venenos, terá afirmado que era o veneno mais lento que conhecia, pois há cinquenta anos que o andava a beber e ainda não tinha morrido.

Café: “Escuro como o inferno, forte como a morte e doce como o amor”
As casas de café proliferam na velha Europa. Aqui uma reprodução de um destes estabelecimentos em Inglaterra.

A Espanha o café chega no século XVIII, bem como a Portugal, e com os espanhóis, os franceses, holandeses e portugueses, começa a sua expansão pelos quatro cantos do Mundo.

Até essa altura praticamente todo o café provinha da Península Arábica. Os árabes mantinham um controlo apertado sobre a sua produção. Os estrangeiros estavam proibidos de entrar nas plantações.

Arrojados, os holandeses conseguiram roubar algumas sementes introduzindo-as em Java, na Indonésia.

A epopeia de Mathieu

A obstinação de um francês, do século XVIII, empenhado em introduzir o café nas Caraíbas, contribuiu para uma das histórias mais interessantes envolvendo a planta e criou um herói.

Gabriel Mathieu de Clieu, era um oficial da marinha francesa, destacado para a Martinica. De licença em Paris, teve acesso a alguns pés de café que decidiu levar para as Caraíbas. Narra o diário de bordo de De Clieu que o navio onde seguia com o café foi atacado por piratas tunisinos e logo depois açoitado por um violento temporal. Sobrevivendo aos dois contratempos, o marinheiro ainda teve que prestar contas com um inimigo a bordo que lhe arrancou algumas pernadas das plantas. De seguida escasseou a água doce a bordo. De Clieu teve então que dividir a sua ração com os pés de café.

café
No início do século XX começa a desenvolver-se maquinaria para facilitar a preparação do grão de café. Neste caso uma máquina para a torra.

Quando a planta foi finalmente plantada foi mantida vigiada por escravos vinte e quatro horas por dia. Multiplicou-se então, tendo em pouco mais de 50 anos dando a origem a 18 milhões de pés de café.

Quanto a De Clieu, morreu aos 88 anos em Paris, existindo atualmente uma estátua em Martinica que perpétua o seu feito.

Por essa altura já o Brasil recebia as primeiras plantas do café, tornando-se rapidamente uma das maiores potências mundiais na sua produção.

Os holandeses afoitos em paragens mais setentrionais, introduziram o café na América do Norte, em Nova Amesterdão, a actual Nova Iorque. Corria o ano de 1660 e a recente bebida tinha que se impor face ao generalizado consumo de chá. Tem a História algumas curiosidades e também fatalidades. Quando em 1773 o rei Jorge de Inglaterra impôs a obrigação de se pagar impostos sobre o chá, os colonos americanos franziram o senho. Revoltaram-se na conhecida Boston Tea Party e, voltaram-se determinantemente para o café. Deles vêm o hábito de fazer uma pausa no trabalho para degustar um café

Em Portugal, influenciados pela moda vinda de França, surgem no século XVIII os primeiros Botequins, casas humildes, onde se servia às mesas, entre outras bebidas, o café. Após o Terramoto de 1755, com a consequente reconstrução da cidade de Lisboa, surgem os primeiros cafés com alguma distinção. Com eles chegam as primeiras Tertúlias.

Os estabelecimentos tornam-se então espaços de convívio, de troca de opiniões. Inicia-se a época de ouro do café, com o surgimento da Chave d´Ouro, do Café Portugal, do Café Lisboa, do Monte Carlo, da Brasileira do Chiado, do Café Nicola, do Martinho da Arcada, só para citar alguns nomes e restringindo-nos a Lisboa.