Num palacete privado de frente para a Ópera Garnier, no centro da capital francesa, a casa fundada pela família Fragonard, natural de Grasse, explica uma arte ligada a esta cidade da Côte d'Azur, berço da perfumaria mundial e que, em 2018, foi inscrita na lista de património cultural imaterial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

"Se trago os meus filhos aqui, não quero que fiquem entediados. Também quero que os turistas chineses que vêm a França fiquem com uma visão fundamental do ofício", explica à AFP Agnès Costa, descendente da dinastia Fragonard e que dirige a criação desta casa.

Com a ajuda de um guia, os visitantes descobrirão um "órgão do perfumista", que conta com 400 frascos para criar composições e que foi usado até ao século XX, e tentarão unir fragrâncias de flores num jogo olfativo.

Maria Antonieta, a rainha 'perfumada'

Musée du Parfum: Uma viagem olfativa pelos três mil anos da história do perfume
créditos: Thomas SAMSON / AFP

Um dos elementos mais importantes da mostra é o cofre de Maria Antonieta, a "rainha perfumada", que, ao contrário dos seus contemporâneos franceses, manteve bons hábitos de higiene herdados da infância em Viena.

Os "pomander", recipientes de metal nos quais se guardavam esponjas impregnadas de óleo essencial, servem para contar uma parte da história da Idade Média. Na época, o perfume tornou-se sinónimo de paganismo para a Igreja, embora continuasse a ter o poder de repelir as epidemias trazidas pela água. Os homens que participavam em cruzadas regressavam com espécies raras, ou outros materiais perfumados.

Os "vinagres" dos frascos tinham um odor muito forte, para devolver a consciência às mulheres que desmaiavam, devido aos apertados corpetes.

No século XVIII, houve uma mudança: os perfumes, que se tornaram mais subtis, deixaram de ser usados para disfarçar os maus odores do dia a dia e tornaram-se uma questão de prazer.

"Hoje, gostamos dos perfumes mais aéreos, mais leves. Se apresentasse um perfume do século XX, iriam surpreender-se. Eram muito pesados. Quando se dizia uma gota, era uma gota. O gesto de carregar um spray não existia", relata Agnès Costa.

Gostos por regiões

Musée du Parfum: Uma viagem olfativa pelos três mil anos da história do perfume
créditos: Thomas SAMSON / AFP

O gosto pelo perfume varia em função da geografia, conta Costa.

"É como as vozes do rádio, que hoje não são as mesmas que nos anos 1950", relata.

"Os franceses preferem as águas de colónia, os perfumes leves, florais, e os americanos, os perfumes embriagantes. (...) Os chineses tendem para o exterior, gostam das coisas com um cheiro forte, assim como os russos", completa.

Os métodos de fabrico e os materiais usados também mudaram muito - para o bem e para o mal.

Os perfumistas não trabalham mais com um órgão de perfumes (na imagem), mas com um papel e um lápis. "Tal como os compositores que têm a música na cabeça", fazem as suas fórmulas e escrevem.

As leis que proíbem, ou limitam, as matérias-primas que podem causar alergias, como as de origem animal, a bergamota, ou a flor de laranjeira, "tornam mais complexa a produção do perfume e limitam a criatividade", explica Costa.

"Temos de voltar a trabalhar constantemente as antigas fórmulas. As pessoas dizem 'o perfumista economiza, o meu perfume já não é mais a mesma coisa'. Mas a culpa nem sempre é do perfumista. Com frequência, é a lei que nos obriga a retirar matérias-primas que estão muito concentradas, segundo as normas do ano", conclui.

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