Nunca foi tão fácil ter um namorado de reserva como nos dias que correm. Esta é uma das tendências facilitada pelas redes sociais e pelos smartphones, apesar de sempre ter existido, como alertam muitos especialistas. Para a percebermos talvez o melhor seja começar pela definição da expressão inglesa backburner, que é usada para descrever um potencial parceiro com o qual não se namora, mas com quem se mantém um flirt.

Essa situação acontece quase sempre online, para o caso dos relacionamentos atuais não darem resultado ou quando não se tem mais ninguém para sair quando se é solteiro. Uma das principais razões é o medo de ficar só que muitos sentem. De acordo com um estudo realizado pelo Hope College, em Holland, no Michigan, nos EUA, 73% dos estudantes universitários inquiridos mantinham, pelo menos, um namorado de reserva.

Desses, 57% tinham, em simultâneo, uma relação estável, constataram os autores da pesquisa. Em média, os solteiros tinham seis backburners e os comprometidos cinco. O ponto de partida para esta investigação foi a própria experiência do líder do estudo norte-americano, o professor de comunicação Jayson L. Dibble.

Quando este docente universitário andava na faculdade, ainda solteiro, trocava o número de telefone com inúmeras pessoas que conhecia e, de tempos a tempos, mandava ou recebia uma mensagem do tipo "Olá estranho, como estás?", recorda.

"E isto mostrava a ideia de que havia um interesse e uma atração, mas não ao ponto de ter um relacionamento completo", refere. "Pensando naqueles dias, pus-me a imaginar o que poderia significar, conta ainda. O medo de ficar sozinho um dia pode ser uma das razões para estas ligações. Podem não ser um sinal de relações infelizes, mas apenas uma forma de precaver o futuro, como consideram muitos especialistas.

Jayson L. Dibble diz ainda que "tem de se ver estes relacionamentos como um outro aspeto da condição humana que serve o objetivo maior de encontrar alguém especial e de desenvolver relações satisfatórias". Para Maria Inês Galvão, psicóloga, "o significado para esta tendência dependerá intimamente da dinâmica relacional do casal. Cada um tem a sua própria química, linguagem, história, rotinas e fronteiras", refere.

Como as experiências de cada indivíduo são diferentes, não lhes pode ser atribuído um significado universal. "Para uns poderá significar uma das hipóteses levantadas, para outros nenhuma delas. Para outros ainda, não significará uma transgressão como, tantas vezes, cultural e socialmente, se associa", sublinha a especialista. A psicóloga portuguesa afirma que em causa, nesta questão, estão as necessidades de cada indivíduo.

Mas a especialista vai ainda mais longe e faz-nos olhar para a forma como funciona o cérebro. "Os circuitos cerebrais ligados ao desejo, ao amor romântico e ao apego são distintos, mesmo que possam funcionar de forma interligada", constata. "Este dado ajuda-nos a explicar como se pode sentir uma ligação emocional profunda a um parceiro de longo prazo, a chamada relação fixa, e, por exemplo, sentir um ímpeto sexual por outra", diz.

Mas, à luz destes relacionamentos virtuais paralelos aos casais, quais são os limites da traição? A pergunta impõe-se! "Tal como é difícil definir um significado universal para um relacionamento virtual paralelo, é difícil estabelecer limites universais de traição", refere a psicóloga. A traição é ultrapassar limites, mas estes são impostos pelos membros do casal, pelo que o que é problemático para uns pode não ser, contudo, para outros.

Para se perceber quais são as fronteiras da infidelidade, "é importante que cada elemento torne claras as suas necessidades e expectativas na e para a relação, o que quer e o que espera do outro e da relação", sublinha. "Desta forma, é possível criar, ajustar e adaptar expectativas, regras e limites em conjunto. Limites ou fronteiras difusos ou pouco explícitos podem levar a que o outro os ultrapasse", esclarece ainda Maria Inês Galvão.

O imperativo de lidar com as consequências

Mas passarão os relacionamentos incólumes a estes comportamentos? As dúvidas são muitas. De acordo com a psicóloga, "as consequências poderão relacionar-se com a forma como se comprometem os casais". "Pode levantar-se a hipótese de que a existência de opções externas à relação poderá ter influência na forma como alguém se dedica à relação de casal e ao outro, estando menos disponível", acrescenta ainda.

"No caso do relacionamento paralelo ao casal ser sentido como infidelidade, pode ser um ponto de rutura onde podem surgir emoções como a tristeza, culpa ou desesperança", realça a especialista. "Simultaneamente, pode ser um ponto de crescimento, renovação e descoberta pessoal e conjugal", insiste Maria Inês Galvão.

Já o impacto para quem está no papel de namorado de reserva depende "das expectativas que tem para o relacionamento (no aqui e agora e no futuro) e quais as necessidades que preenche ao estar neste papel", refere a psicóloga.

"O impacto será, também, condicionado pela manutenção, simultânea ao papel de namorado de reserva, de uma relação de casal (ou não) ou de outras relações (ou não)", explica. Os investigadores acreditam que manter um backburner é mais comum entre os millennials e os homens. Relativamente aos primeiros, o facto de os participantes do estudo serem estudantes universitários "é uma limitação à generalização dos resultados", diz.

Parece, também, fácil fazer a ligação entre os millennials e a utilização de tecnologia e plataformas de comunicação. "Esta geração cresceu com e a utilizar tecnologia no seu dia a dia, marcando as suas dinâmicas relacionais com, por exemplo, a utilização de chats e de redes sociais para comunicação com pessoas significativas”, comenta Maria Inês Galvão. Já relativamente à questão dos homens, também tem uma teoria.

A psicóloga, habituada a lidar com este tipo de situações, enumera duas perspetivas, embora realce que ambas sejam redutoras. "Por um lado, temos conhecimento de teorias biológicas e evolucionistas que abordam a procura do homem por um número mais alargado de mulheres, para fins reprodutivos, e a procura da mulher pelo parceiro mais adequado e com as melhores características", refere também Maria Inês Galvão.

"Por outro lado, o peso e a crítica social e cultural que atribuímos a uma relação fora da relação fixa é diferente para homens ou mulheres", realça a especialista portuguesa. "Havendo um maior julgamento, ainda que estereotipado, no caso delas, levanta-se a hipótese de não haver total transparência na resposta das mulheres aquando a participação em estudos relativos a esta temática", acrescenta ainda Maria Inês Galvão.

Como lidar com a descoberta indesejada

E agora? Quando se descobre que o parceiro tem um namorado de reserva, a psicóloga, aconselha primeiro a compreender qual é o significado e qual é o impacto emocional dessa descoberta para cada elemento e para o casal. "Sabendo que as estratégias para lidar com a descoberta devem ser mais adaptadas a cada casal e ao seu significado do que generalizáveis, parece importante salientar o papel da comunicação", diz.

"Esta é essencial em qualquer momento da relação, antes ou após a descoberta de que o parceiro mantém um namorado de reserva", salienta a especialista. "A comunicação pode ter um papel de reparação em caso de desorganização na dinâmica relacional, tornando explícitas as vontades, os limites e as fronteiras que cada elemento quer e procura na relação, através de um diálogo honesto e profundo", remata ainda a psicóloga.

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