O jornalista da Ontime perguntou às crianças da Associação de Apoio a Crianças Abandonadas (AACA) sobre o que mais sentem a falta, no seu dia-a-dia. Um olhar frio e melancólico viu-se, durante a conversa, na face das crianças desfavorecidas, descreveu o repórter que no dia 15 de Dezembro esteve na festa de Natal do Ulengo Center, proporcionada pela Fundação Arte e Cultura, a Bonws Seguros e o grupo SICCAL.

“O dia é muito mais isolado, sem muita chance de esquecer o nosso posicionamento na sociedade. Muito antes dessa entrevista, tínhamo-nos esquecido do que somos. Neste Natal foi possível esquecer tudo. Estamos a gostar dos presentes, da música, do lanche e do Dj Darcy, que só víamos na televisão”, confessaram as meninas Márcia Mucheta, de 14 anos, e Alice Esperança, de 15 anos, ambas a viver no AACA há já quatro e três anos, respectivamente.

Há vinte anos a viver na rua, a história surpreendente do jovem Padú Garcia, de 25 anos de idade, não é, infelizmente, um caso isolado. Chegou ao largo Primeiro de Maio quando ainda tinha cinco anos, e desde então vive aí.

“Temos o apoio e a assistência da Fundação Arte e Cultura. O Natal está a correr bem, é a segunda vez que participo. Os dias no Primeiro de Maio são muito difíceis. Gostava de voltar sempre a actividades como estas para esquecer os problemas que enfrento”, diz Padú.

Foi preciso fazer muita coragem deste jovem para não começar logo chorar, enquanto relembra o que foi e é a sua vida.

Entre o ficar, ou não, na rua, o conselho vem de Eliseu da Silva Bravo, 21 anos de idade, que já nem sabe há quanto tempo faz a sua vida no Primeiro de Maio.

“Que as crianças não fujam dos centros. Se, como eu, estão na rua, saiam. Saiam porque não é sítio para viver. Se passaram na rua, que em 2018 passem em casa. Feliz natal a todas as crianças de Angola”, acrescentou Eliseu, emocionado.

Crianças

Pelo meio, há quem aproveite as formações da Fundação Arte e Cultura para projectar o seu futuro. O pequeno cantor Wilson António dos Santos, do Centro Arnaldo Janssen, criou o trio “Os Fatiotas”, um grupo de músicos de Afro House. Coube a eles animar a festa de Natal no Ulengo Center

Ao todo, 135 crianças desfavorecidas participaram do Natal proporcionado pela Fundação Arte e Cultura, Bonws Seguros e o grupo SICCAL, sendo 65 do Primeiro de Maio, 50 do Centro Arnaldo Janssen e 30 do AACA, indica a directora da Fundação Alfonsina Domingos, que fez um balanço positivo do evento.

“Ultrapassou a nossa expectativa. Esta é apenas a consolidação dos trabalhos que desenvolvemos com estas crianças durante o ano. Damos formações nas mais diversas áreas artísticas, e, no final do ano, fechamos com o Natal das crianças. Foi emocionante vê-las a demonstrar aqui aquilo que aprenderam com a Fundação durante o ano”, disse.

Músicos angolanos
Músicos angolanos em acção solidaria

Os músicos Madruga Yoyo, Dada 2, assim como Bruno Laizer e Dj Darcy, juntaram-se à causa e animaram as crianças.

Segundo o kudurista Madruga Yoyo, tudo se justifica porque as crianças merecem a aproximação de pessoas, para se sentirem mais valorizadas. Daí afirmar que é importante que as figuras públicas não pensem somente em participar em actividades onde há dinheiro.

Dj Darcy corrobora com o kudurista Yoyo. Não são poucas as vezes em que leva os seus filhos a eventos com as crianças desfavorecidas, para as ajudar a entender o sentido da vida, confessa.