A quadra festiva está, mais uma vez, à porta, com as suas características, dificuldades e desafios que fazem mudar, a cada final de ano, a rotina das famílias.

Esse ano, pela sexta vez consecutiva, os angolanos celebram as festas em ambiente de crise económica e financeira, que volta a "impor", nos lares, a necessidade de contenção nos gastos.

Em 2019, Angola voltou a ressentir-se do impacto negativo da flutuação do preço do petróleo, que afectou a arrecadação de receitas e comprometeu as finanças das famílias, hoje com menos dinheiro para festejar.

O país registou, desde Setembro último, uma alta de preços quase generalizada, com os produtos da cesta básica a "dispararem", incluindo aqueles que dão suporte ao Natal.

Só em Agosto, por exemplo, a taxa de inflação mensal, medida pelo Índice de Preços do Consumidor Nacional (IPCN), chegou a 1,44 por cento, a segunda maior do ano.

A maior percentagem, de acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística, foi a de Julho, com uma taxa de inflação de 1,52 por cento.

Ao longo do ano, vários produtos típicos da quadra festiva registaram alta de preços, como farinha de trigo, ovo, leite, manteiga, açúcar, fermento, coxa de frango, peru, grão-de-bico, azeite-doce, batata-rena, bebidas diversas e o já popularizado bacalhau.

A alta de preços vem condicionar os programas das famílias, fazendo adivinhar, este ano, uma quadra festiva sem o mesmo "requinte" dos tempos de "bum económico".

Para muitas famílias espalhadas pelo país, em particular pela capital, Luanda, a tradicional ceia de Natal terá, em 2019, sabor diferente, sendo que muitas vão celebrar a data, pela primeira vez, desprovidas de elementos simbólicos da quadra festiva.

Produtos nacionais ganham espaço

Nesse cenário de crise, quem nunca se queixou da falta de "comida tradicional" à mesa, como bacalhau, tem agora motivos de sobra para se reinventar e optar por novas ementas, à base de produtos nacionais.

As festas de Natal e Ano Novo já são um tema de conversa em várias famílias que procuram adaptar-se ao novo contexto, abrindo mão de elementos como cabazes e brinquedos.

Dada a falta de condições financeiras, já muitos falam de cortes na lista de compras para a ceia natalina. O bacalhau está entre os alimentos mais "sacrificados".

O preço deste produto "disparou" nos estabelecimentos comerciais, saindo de 80 mil kwanzas a caixa de 15 quilogramas, no princípio do ano, para 136 mil e 800, em princípio de Dezembro.

A caixa de bacalhau graúdo da Noruega (15 quilogramas), por exemplo, está a custar 136 mil kwanzas, sendo que um quilograma sai a oito mil kwanzas.

Já o bacalhau crescido da Noruega (caixa de 15 quilogramas) está a custar 130 mil. Um quilograma do mesmo produto fica orçado em sete mil 650 kwanzas.

Em contrapartida, no mercado paralelo, a caixa de bacalhau com os mesmos gramas está a ser comercializada a um valor médio de 140/150 mil kwanzas.

Com essa variação de preços, devido à acentuada inflação e consequente perda do poder de compra das famílias, muitas estão a optar por produtos locais.

Há quem, diante da impossibilidade de resistir aos preços "sufocantes" do bacalhau no mercado nacional, encontrasse a solução em produtos similares, como o macaiabo ou até o peixe seco.

Dados obtidos pela ANGOP indicam que a caixa de peixe macaiabo (bacalhau escalado) de 10 Kg está a custar, em média, entre 24 e 35 mil e 600 kwanzas.

Outros, porém, estão a optar pela compra de bacalhau fresco, que pode chegar à mesa das famílias a menor preço, como alternativa ao bacalhau importado, depois de escalado e seco durante alguns dias.

O macaiabo poderá vir a ser a "tábua de salvação" da funcionária pública Edna Américo, que passará este ano, pela primeira vez, a ceia de Natal sem o bacalhau importado.

Depois de várias décadas a experimentar o sabor do cozido com bacalhau importado, a cidadã diz-se consciente das dificuldades, pelo que não se propõe a gastos exagerados.

Com a compra de macaiabo, a dona de casa acredita que fará contenção de gastos, mantendo-se fiel ao princípio de que Natal é festa, mas não sinónimo de esbanjamento.

"Aconselho as outras famílias a variarem o cardápio e a ajustarem de acordo com a sua realidade financeira. Trocarei o bacalhau pelo macaiabo, porque não estou em condições financeiras, mas isso não vai impedir-me de ter o tradicional cozido à mesa", refere.

Já Rosa de Fátima, trabalhadora doméstica, diz que é impossível, nessa época, pensar em muita comida para a ceia de Natal, aconselhando as famílias a terem mesas mais simples. "Janeiro é apertado, por isso, esse ano, penso em fazer apenas um churrasco ou mesmo uma boa sopa, porque não há clima para festejos. O país está em crise", expressa.

Queda nas vendas de brindes

Outro elemento que se prevê reduzido este ano, no período da quadra festiva, é a troca de presentes. Apesar de ainda faltarem alguns dias para a celebração do Natal, a correria pelas ruas, em busca de "brindes", adivinha-se claramente menor.

Esse ano, muitas famílias pensam em abdicar do já tradicional "Amigo Oculto", fazendo antever queda acentuada no índice de vendas de lembranças de Natal.

A poucos dias da celebração, os vendedores de presentes ainda não começaram por inundar o mercado. Pelo menos nas ruas, a procura por lembranças ainda é moderada.

Segundo Emília Pereira, vendedora de peluches e material decorativo há mais de 10 anos, esse ano as vendas estão muito fracas em relação ao mesmo período de 2017 e 2018.

"Nessa época do ano, quase que já não havia mercadoria, diferente deste ano que ainda tem o stock quase intacto. Esse ano está mesmo difícil", lamenta a comerciante.

"Há vezes em que vendemos cinco a 10 presentes por semana, coisa que não acontecia nos anos anteriores, vendíamos quase tudo neste período (a uma semana do Natal)", lembra.

Quem também se queixa da falta de clientes é Madalena Francisco, comerciante de brinquedos.

Todavia, afirma que, nesse momento, os produtos de criança são os mais procurados (bonecas e carrinhos), por estarem mais baratos (2.500 kwanzas), pelo que nem tudo está perdido.

"Os brinquedos para as crianças é que têm tido algumas saídas, com destaque para ursos, relógios, perfumes e bijuteria, porque estão mais baratos. Acreditámos que, noutros dias, as coisas possam vir a melhorar", expressa, confiante na pronta-resposta dos clientes.

Já o florista João Mateus, profissional do ramo há cinco anos, reafirma que até os buquês de flores (mais vendidos nessa altura) estão a "sentir" o efeito da crise económica.

"Por dia, podes vender seis ou 10 arranjos, coisa que não acontecia nos outros anos, em que se vendia cerca de 20 buquês/dia", lamenta o comerciante.

Pelo que se vê nas ruas, esse ano, a oferta de brindes poderá ser maior do que a procura. Tal como em 2018, muitos cidadãos estão a abdicar dos presentes de Natal.

Com ou sem prendas, a verdade é que milhares de angolanos se preparam para viver a quadra festiva, com fartura ou em clima de moderação.

A expectativa em 2019 é de um Natal simples e um Ano Novo sem extravagâncias.

Apesar dos cortes nas despesas, as famílias dizem-se prontas para a quadra festiva, longe de esbanjamentos, mas sempre dispostas a sentarem-se à mesma mesa, na ceia natalina, para partilhar aquilo que nunca deve faltar nos lares: o amor eterno.

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