Em julho de 1926, Helen Hope Mirrlees, poetisa britânica, apercebendo-se do impacto que viria a ter o facto de as mulheres se estarem finalmente a emancipar, reuniu um grupo de figuras do universo cultural num jantar e, no final, pediu-lhes que previssem o futuro e que imaginassem como seriam as relações amorosas e o casamento dentro de um século. Feminista assumida, a autora queria saber até que ponto é que os papéis do homem e da mulher se poderiam alterar.

No campo dos afetos, as previsões dos notáveis que conseguiu reunir há quase 100 anos, foram extremamente certeiras, como poderá ler de seguida. Foram mesmo tão sugestivas que não resistimos em repetir a experiência para um artigo da edição impressa da Saber Viver. Pedimos a uma mulher e a um homem que fizessem o mesmo exercício. Não impusemos formas nem conteúdos. Apenas sugerimos que projetassem como imaginam que será o amor nessa altura.

Não duvide que vai surpreender-se com a reflexão romântica da psiquiatra, cantora e locutora de rádio Maria de Vasconcelos e com o lado mais sério do humorista Pedro Tochas. "Poderemos andar em carros voadores, viver em estações espaciais, informatizar a vida de lés a lés, mas os seres humanos serão sempre seres que sonham e que amam", acredita ela. "Com o aumento da esperança de vida, duvido que seja viável estar 80 anos com a mesma pessoa", desabafa ele.

A visão apaixonada da psiquiatra Maria de Vasconcelos

Meu amor, pediram-me que imaginasse o que será o nosso amor daqui a 100 anos. Apeteceu-me dizer apenas que o nosso amor será o que sempre foi, o que já era há 100 anos. Mas parece que uma frase não chega... Vou dizer-lhes, então, que o amor é a razão de ser do ser humano, a que lhe dá sentido. Um ser que sonha, que ama e que não pode viver sem sonhar nem amar está preparado para as mais terríveis provações, adapta-se a tudo, mas não pode viver sem sentido.

Eu, todos os dias, oiço histórias de amor. Belas, belíssimas, histórias de amor, inscritas nas estrelas que brilham no céu dos amantes. Histórias de encantar que têm desejo, fantasia, canções que tocam na rádio só para eles, cheiram a mar, a flores, a roupa lavada... Têm frases de livros, brincadeiras e tolices, mistérios e segredos, cortesia e abandono, beijos roubados, suspiros e lágrimas... Histórias que, como não poderia deixar de ser, têm alegria e dor. Histórias que esquecem o tempo, perdem-se no espaço, erguem muros, derrubam barreiras, vivem de esperança, ganham batalhas, desenham corações... Há, nesses relatos, piscares de olhos, cumplicidade, hormonas aos gritos, companheirismo, bombons, nostalgia, conflitos e intimidade, perdas e lutos, feridas por sarar...

Mas também há espaço para o ressentimento, para a mágoa, para a loucura, para a saudade, para os abraços... E confiança, mensagens escritas, conversas informatizadas, velas, novelas mexicanas, filmes candidatos a Óscar, romances impossíveis, gostos, desgostos, silêncio, conforto, vazio, tolerância... A esses, juntam-se ainda inocência, incoerência, pele, aconchego, meiguice, riso, tragédia, galanteria, inversão de papéis, mudanças bruscas ou lentas...

E, amor, têm de tudo as histórias de amor que me contam. Daqui a 100 anos, imagino-as assim, cheias de amor. Nada para a modernidade. Poderemos andar em carros voadores, viver em estações espaciais, informatizar a vida de lés a lés, mas os seres humanos serão sempre seres que sonham e que amam. Há uns anos escrevi que o amor é um convite sem planos nem manhas. Um convite destes não se declina. Nem hoje, nem daqui a 100 anos. Não achas, amor?

O amor libertador que o humorista Pedro Tocha antecipa

Tenho um espetáculo de rua sem palavras que faço pelo mundo inteiro. A personagem é um palhaço que faz tudo para conseguir um beijo da rapariga por quem se apaixona. Cheguei à conclusão que, independentemente da cultura do público que assiste, somos mais parecidos no amor do que as pessoas pensam. Por incrível que pareça, acho que dentro de 100 anos faria o mesmo espetáculo. E, por incrível que pareça, penso que, nesse período, o amor não irá mudar.

Acontecerá, isso sim, uma maior divisão entre o amor e o sexo. Haverá mais liberdade a nível sexual. Aquilo que nos trava atualmente é o medo da sida e do VIH [vírus da imunodeficiência humana] mas, dentro de 100 anos, quando a vacina contra o vírus já estiver disponível, haverá uma total libertação sexual. Poderão passar mil anos, mas o ser humano está condenado a encontrar alguém que o faz tremer e ficar sem fôlego, que o arrebata completamente. Há coisas que nunca mudam na condição humana. A forma é que pode ser diferente. Há 100 anos, procurávamos o amor na nossa aldeia. Agora, nos tempos que correm, fazemo-lo através da internet e das redes sociais. Dentro de 100 anos, quem sabe se não o faremos através da transmissão de pensamento...

Quanto ao casamento, temos de perceber que esta foi uma instuição que surgiu quando a esperança de vida rondava apenas os 30 anos. Nessa altura, viver 20 anos com uma pessoa era possível e até suportável. Agora, com o aumento da esperança de vida, duvido que seja viável estar 80 anos com a mesma pessoa. Portanto, dentro de um século, o casamento no sentido católico do termo, não terá futuro. As pessoas, pura e simplesmente, ficarão com quem gostam.

O que os convidados de Helen Hope Mirrlees disseram há quase 100 anos

Estes são alguns dos retratos futuristas do amor traçados em 1926. Será que concorda com estes pensamentos?

"Surgirá um modelo de coabitação homem/mulher, inicialmente, sem qualquer relação conjugal. Algumas dessas ligações acabarão em casamento, outras ficar-se-ão pela co-habitação e outras simplesmente terminarão", proferiu publicamente Edward Phillips Oppenheim, romancista.

"Quando o homem se aperceber que não é dono do corpo e da alma da mulher, simplesmente porque lhe paga três refeições, será forçado a oferecer-lhe algo mais do que pão e manteiga", afirmou Norma Talmadge, estrela de cinema mudo. "Terá que lhe oferecer qualidades da alma e do carácter e besuntá-la com compota, se ela assim o desejar", ironizou a artista.

"O divórcio será mais fácil, barato e menos humilhante. Isto, provavelmente, conduzirá ao exercício do casamento experimental. A luxúria aumentará e chegará o dia em que o facto de a mulher ou o marido passarem a noite fora, deixando o parceiro em casa, não será considerado uma ameaça", referiu Arnold Bennett, romancista.

"Não haverá nenhuma lei que force um casal que se detesta a continuar junto. A mulher deixará de ser uma máquina de fazer bebés. Homem e mulher encarar-se-ão como parceiros e iguais, moral, física e economicamente", previu Arthur Hamilton Gibbs, poeta.

"Parece-me muito provável que o processo de encarar o casamento como um contrato com prazo de validade avançará a grande velocidade", afirmou, durante o encontro, Hillaire Belloc, jornalista.

"O laço do casamento tornar-se-à mais solto e o número de crianças criadas apenas por um dos pais aumentará", antecipou, na altura, Leonard Darwin, político e economista britânico que viveu entre 1850 e 1943. "As relações sexuais antes do casamento tornar-se-ão mais frequentes", antevia ainda o filho do reputado geólogo e biólogo naturalista inglês Charles Darwin.

Texto: Nazaré Tocha com Maria de Vasconcelos (psiquiatra) e Pedro Tochas (humorista)

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