Quando o fogo exuberante da paixão dá lugar a um amor mais calmo e tranquilo, surge a intimidade e o compromisso a dois. Mas, se a primeira fase é relativamente fácil de alcançar, uma vez que são vários os estímulos que nos despertam para esse estado de arrebatamento, a segunda é a mais difícil de manter. Conheça as várias fases do amor e, com a ajuda das recomendações de vários especialistas, saiba como conseguir uma relação (mais) duradoura.

"Amor é fogo que arde sem se ver. É ferida que dói e não se sente. É um contentamento descontente. É dor que desatina sem doer", escreveu um dia um famoso poeta. Quem não se recorda dos célebres versos de Luís de Camões, que imortalizou para sempre este poderoso sentimento através da sua escrita? Igualmente associado à dor e perda, o amor surge como motivo de dor e morte através do escritor inglês William Shakespeare na sua tragédia de 1595.

"Romeu e Julieta", uma das obras literárias mais conhecidas em todo o mundo, foi imortalizada na literatura, no teatro e até no cinema e, como é do conhecimento popular, acaba com a morte dos dois apaixonados, por não conseguirem enfrentar a separação. Mas, que sentimento é este, tão forte e soberano que leva até à morte dos que ousam enfrentá-lo? O amor, tal como o conhecemos hoje, nem sempre foi encarado na mesma forma pelas diferentes culturas e graus civilizacionais. Na literatura grega, foi um sentimento exaltado, levando a tragédias similares à descrita por William Shakespeare, revitalizada pelo período do renascimento após a idade média. Os especialistas referem, porém, que o amor romântico, o casamento por amor, é um fenómeno tardio.

Esse tipo de união romântica terá surgido mais intensamente na era da industrialização e urbanização na Europa do século XVIII. "Historiadores britânicos afirmam que o amor como base do casamento, talvez seja a mais importante mudança nas mentalidades, ocorrida no limiar da idade moderna ou possivelmente nos últimos mil anos da história ocidental", pode ler-se na obra "Uma história de amor no Brasil", da autoria da historiadora Mary del Priore.

"Já os franceses concordam com que a revolução afetiva teria ocorrido predominantemente no século XVIII e no início do século XIX, modificando radicalmente os sentimentos amorosos. É como se tivéssemos passado de um período em que o amor fosse uma representação ideal e inatingível, na idade média, para outra em que vai se tentar, timidamente, associar espírito e matéria, o renascimento", escreve ainda a brasileira Mary del Priore, nascida em 1952.

"Depois, para outro, em que a religião católica e a medicina tudo fazem para separar paixão e amizade, alocando uma fora, outra dentro do casamento, como sucedeu na idade moderna. "Deste período, passamos, ao romantismo do século XIX, que associa amor e morte, terminando com as revoluções contemporâneas, momentos nos quais, o sexo tornou-se uma questão de higiene e o amor parece ter voltado à condição de ideal nunca encontrado", diz.

A paixão é mesmo o início do amor?

Amor e paixão, que muitos consideram à partida os dois lados de uma mesma moeda, podem ou não coexistir. Confuso? Não fique. A explicação é simples! "A paixão é entendida, muitas vezes, como a fase inicial do amor. Falamos, obviamente, do amor entre duas pessoas com a finalidade de estabelecer um relacionamento [conjugal] e não do amor fraternal nem do amor parental", explica Rita Fonseca de Castro, psicóloga clínica e terapeuta familiar na Oficina da Psicologia.

Para esta especialista, "o que acontece numa relação duradoura é que a paixão tenderá a dar lugar a um sentimento mais tranquilo e maduro, com estabelecimento de laços de companheirismo, a que damos o nome de amor. Esta substituição é, até, desejável", explica. "Será que alguém aguentaria muito tempo o estado de ativação característico da paixão?", questiona. O encantamento será uma das condições inerentes à paixão. Quando estamos apaixonados, sentimo-nos encantados com tudo o que vemos no outro. É o sabor da novidade, do desconhecido. Com o decurso do tempo, algumas daquelas características que inicialmente tanto nos atraíram e até admirávamos, podem tornar-se foco de atrito.

Principalmente se forem muito diferentes das nossas. Nestes casos, podem surgir sentimentos de desilusão ou até mesmo de desencanto. Contudo, o que tende a acontecer é "um ajustamento mútuo às diferenças", como o explica Rita Fonseca de Castro. Ainda que os estudos com casais que permanecem unidos "tendam a mostrar que a paixão dura entre um a dois anos", a realidade tem demonstrado que, ao fim de algum tempo, esse sentimento pode reaparecer.

Considerando as diferentes fases que compõem o ciclo de vida de um casal, esta regressa frequentemente quando se dá a saída dos filhos de casa e, curiosamente, esta é também uma fase que pode ser de crise para os casais que descuraram a sua relação por se terem dedicado, exclusivamente ou maioritariamente, ao desempenho do papel de pais, foram apurando inúmeros investigadores nos trabalhos científicos que desenvolveram nas últimas décadas.

Robert Sternberg, um reputado psicólogo norte-americano, apresentou, em 1997, aquilo a que chamou de "Teoria triangular do amor". A tese que desenvolveu considera que este sentimento é composto por três vértices, sendo eles a paixão, a intimidade e o compromisso. A paixão, o primeiro dos três, contempla todos os movimentos que levam ao romance, à atração física e à relação sexual, aos fenómenos relacionados com o amor e à excitação física e emocional.

Já o compromisso, essencial para um relacionamento duradouro, diz respeito à decisão de amar o outro, comprometendo-se a amá-lo. Por sua vez, a intimidade, muito ambicionada pelos elementos do casal desde o início da relação, remete para sentimentos que promovem o bem-estar da outra pessoa e a capacidade para comunicar além de aspetos superficiais ou práticos. "Estes três elementos podem combinar-se de diferentes modos, podendo estar, ou não, presentes, dando origem a diferentes tipos de amor, sendo que uma mesma relação pode ir oscilando entre eles, de uma forma equilibrada", refere Rita Fonseca Castro. "Existem, deste modo, sete formas de amor", diz.

"A presença dos três componentes determina a existência de um amor completo ou realizado", acrescenta ainda a especialista. No amor romântico, estão presentes paixão e intimidade. No amor companheiro, existe intimidade e compromisso. Este não será muito diferente de uma forte relação de amizade. O amor ilusório, também apelidado de amor irreal, deriva da combinação da paixão com o compromisso. No amor vazio, existe apenas o compromisso.

A presença só de intimidade determina o carinho e o amor apaixonado surge quando só existe paixão. Para António Sampaio, psiquiatra e sócio-gerente da Egoclinic, existe na sociedade uma acentuada carência de amor. A paixão é abundante, mas o amor não. "As pessoas são pouco amadas e a sociedade é muito só. O amor é o essencial, é a total união com o outro, é o conhecimento total do outro. Já a paixão não, essa é abundante", afirma mesmo o especialista.

António Sampaio descreve paixão como uma situação prazerosa que despoleta a fisiologia ligada ao prazer, a neurotransmissores de dopamina e de adrenalina, que leva eventualmente à fusão sexual e que não conduz necessariamente ao amor. Para este especialista português, o amor é um sentimento tranquilo que só a espécie humana conhece, que não existe nos animais da mesma forma. "Os animais não conhecem o conceito de dar a vida pelo outro", refere.

"Para além disso, fazemos amor de frente, ao contrário dos outros animais, para assegurar a espécie", sublinha António Sampaio. "Os bebés que nascem prematuramente, ao contrário das outras espécies, não se tornam independentes logo após o nascimento. Precisam de uma família que assegure a sua sobrevivência. Ao praticarem o ato sexual de frente, criam-se laços entre os dois progenitores, assegurando alguma monogamia durante a fase em que o bebé necessita apoio parental para se tornar independente", acrescenta ainda o psiquiatra. Segundo os especialistas, o contato visual é o primeiro passo para despoletar uma paixão. Talvez por isso se fale comumente em amor à primeira vista.

Essa expressão é, todavia, errada porque o que acontece, de facto, é paixão e não amor. Isto se tivermos em conta os anteriores conceitos. A explicação para este suposto amor à primeira vista acaba por ser uma resposta química do nosso corpo. Ao encontrar alguém que nos estimula visualmente ou mesmo através do odor, embora qualquer um dos sentidos possa receber estímulos, desencadeia-se todo um processo químico, como a libertação de hormonas sexuais.

A essas, juntam-se neurotransmissores, como a dopamina, que influenciam o nosso cérebro e nos fazem avançar para os vários estádios do amor. A concretização sexual reforça este poder de atração. Durante o processo, o corpo segrega a oxitocina, hormona que ajuda a reforçar os laços afetivos entre o casal. Ao nível físico, as transformações mais evidentes são, por exemplo, o facto de a pele ganhar tons mais rosados e corados e os lábios mais cheios e avermelhados.

A temperatura sobe e o corpo transpira para a baixar, o coração bate mais forte, com a adrenalina libertada. Também a voz da pessoa amada se torna mais atraente e excitante. Como afirma Rita Fonseca de Castro, felizmente que esta fase não dura muito, geralmente entre um a dois anos em média no máximo, pois o desgaste físico é grande. Além de haver quem, à conta deste forte sentimento, acabe por não comer, não descansar, faltar ao trabalho, ignorar amigos e familiares, a verdade é que estas substâncias químicas libertadas também se esgotam aos poucos. E dão lugar a outras, associadas ao amor tranquilo, a oxitocina e a vasopressina, que nos fazem sentir mais calmos e mais seguros.

Quando a paixão dá lugar ao compromisso e à intimidade, geralmente acontece a relação duradoura e é aqui que começam a surgir, muitas vezes os maiores problemas. É aqui que, muitas vezes, surge a necessidade de terapia de casal ou de aconselhamento numa consulta de sexologia. As relações duradouras tendem a tornar-se rotineiras, menos estimulantes e, sobretudo, com a chegada dos filhos, acusam falta de tempo e geram falhas de comunicação.

"Em geral, não estamos sensibilizados para os relacionamentos amorosos. Esta falta de sensibilização leva a que sejam criadas expetativas irrealistas acerca daquilo que é uma relação a dois e, não sendo essas mesmas expetativas partilhadas e comunicadas, surjam alguns desentendimentos e falhas na comunicação que, muitas vezes, se tornam rígidas e conduzem a situações difíceis de ultrapassar", alerta Rita Fonseca de Castro, especialista nesta área.

Amor com amor se paga mas é preciso saber gerir o relacionamento para conseguir manter a chama acesa

"Temos fraca educação e sensibilização para a inteligência emocional e este é um fator essencial quando falamos em relacionamento humano", sublinha Catarina Lucas, psicóloga clínica. "Cada vez mais nos é exigida esta inteligência emocional mas a verdade é que continuamos muito focados na aquisição de competências técnicas em detrimento das competências como a empatia, a assertividade, a consciência e a expressão emocional", critica a especialista.

"Estas são fundamentais para o estabelecimento de uma relação amorosa gratificante, onde impere a compreensão e respeito mútuo", realça ainda. "Por isso, creio que podemos afirmar que ainda temos um longo percurso a percorrer no que concerne à educação para o amor", considera a psicóloga. "Acredito que manter uma relação feliz a longo prazo é possível, mas é preciso olhar para a relação da forma certa e ter uma dose de inteligência emocional", alerta.

"A forma como hoje vivemos as relações é muito diferente da forma como as gerações anteriores as viveram. Atualmente, as pessoas toleram menos faltas de respeito, agressões e ausência de sentimento. Já não se sentem obrigadas a permanecer em relações que não querem. Por isso, a relação tem que ser efetivamente gratificante para o casal para que se possa manter. Tem que existir investimento, construção constante e um grande sentido de casal", avisa a psicóloga.

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