Fugir da RDCongo para dar à luz gémeos em Angola

Enquanto recorda o drama vivido às mãos das milícias congolesas de Kamwina Nsapu, Ngandu segura nos braços os gémeos nascidos no final de abril em Angola, assumindo sem rodeios que fugiu para salvar os sete filhos da morte certa.

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"Tive medo de morrer e de perder os meus filhos. Tentei protegê-los, porque eles matavam as crianças", começa por contar, friamente, Ngandu Kukakedimema, um rastafari convicto, de 45 anos, que escapou às catanas e decapitações das milícias de Kamwina Nsapu.

Vivia em Kamako, a poucos quilómetros do Dundo, na Lunda Norte, Angola, juntamente com a mulher, Tshiana Mujinga, de 33 anos, e os cinco filhos, o mais velho com 10 anos.

A mulher estava já com oito meses de gravidez quando as milícias - que contestam a autoridade do Governo de Kinshasa e do Presidente Joseph Kabila - destruíram o pouco que o casal tinha construído, na lavra e na casa.

Era assim chegada a hora de partir para Angola: "Vimos os ataques da milícias, cortavam as cabeças e mataram muitos irmãos meus, da família ‘rasta'. Não aguentámos e tivemos de fugir".

Chegaram ao Dundo a 13 de abril e foram de imediato transportados pelos militares desde a fronteira até à maternidade local, antes de serem colocados num dos dois centros de receção provisória de refugiados nos arredores daquela cidade.

"Levámos um dia a pé até á fronteira. Depois fomos logo transportados para a maternidade, porque a minha mulher já tinha dores do parto", recorda Ngandu Kukakedimema, que tal como a mulher se dedicava às lavras e ao comércio informal na RDCongo.

Depois da aflição da fuga pela mata, na escuridão, com a mulher grávida e os restantes filhos menores, confessa que o parto até foi o mais simples, mesmo sendo gémeos.

A mulher deu à luz a 29 de abril e, como manda a tradição da etnia Baluba, o primeiro a nascer foi batizado de Mbuyi, no caso uma menina, e o segundo de Kanku, um menino, ambos Ngandu, nome do pai.

Vivem hoje todos juntos numa das dezenas de tendas do centro de refugiados de Mussungue, onde o pai conseguiu um trabalho como encarregado do saneamento local.

Ganha 500 a 1.000 kwanzas (entre 2,5 e cinco euros) por semana, tratando do centro que agora é a sua casa, juntamente com milhares de outros refugiados, mesmo que sem as condições mínimas, em que a pouca comida é confecionada em pequenas fogueiras improvisadas entre tendas, terra e algum lixo.

"Temos alguma alimentação e o dinheiro que ganho chega para ajudar. Regressar? Vamos esperar que tudo fique calmo, para já não", atira, antes de entregar os gémeos à mãe, para serem alimentados.

Para fugirem à violência das milícias, mais de 30.000 refugiados congoleses são agora refugiados no Dundo, capital da Lunda Norte, em dois centros temporários que, até julho, serão substituídos por um novo campo preparado para o efeito e com capacidade para receber até 50.000 pessoas.

Lusa

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