Dar à luz em Luanda. Uma cama para duas mães e enfermeiras sem compaixão

O Dia da Mãe é um bom pretexto para celebrar o momento em que a vida de uma mulher ganha um novo sentido, mas, por vezes, recordar o nascimento dos filhos pode ser pouco agradável.

dia da mae

Em Luanda, por exemplo, o dia do parto pode transformar-se num filme de terror, mas também há quem diga que tudo correu bem. O SAPO recolheu testemunhos de quem esteve nas maternidades Lucrécia Paim e Augusto Ngangula.

Isabel (nome fictício), de 30 anos, viu o seu bebé nascer na maternidade Augusto Ngangula e confessa que viveu grandes emoções que a tornaram mais forte. Descreve o que passou como muito assustador, momentos que lhe mostraram como a vida e a realidade são demasiado duras.

"Passei a noite no chão com o meu filho, num lugar improvisado, só para não dividir a cama com mais alguém. Normalmente uma cama de solteiro serve para duas mães e dois bebés", relembra.

Isabel também não esquece o caso, que presenciou, de uma mulher que fez uma cesariana e que viu o seu bebé falecer durante a noite. A mãe da grávida teve de permanecer durante vários dias no exterior do hospital, para poder estar informada de tudo que acontecia com a filha, após o parto, e ainda comprar os medicamentos que normalmente faltam nas maternidades. Só assim conseguia ter a certeza de que fazia todos os tratamentos necessários a quem realizou uma cesariana.

As histórias que tem para contar, no entanto, não se ficam por aqui. "Vi várias mulheres a voltarem para o bloco operatório porque a ferida infectou. Algo que acontece quase sempre, pela carência de medicamentos e de um bom acompanhamento médico desde a altura dos curativos até ao sarar da ferida grave. É doloroso ser mulher, ver tudo isto e não poder fazer nada", lamenta.

Às péssimas condições de acolhimento e acompanhamento, a que são sujeitas as grávidas, soma-se a falta de preparação das parteiras para lidar emocionalmente com as mães que ali chegam, além de serem feitos procedimentos sem a autorização das pacientes ou dos seus familiares. "Várias meninas sofrem ‘bullying’ por parte das parteiras por causa da tão pouca idade, por terem pouca experiência e pela má preparação da paciente. E há ainda jovens, com 23 ou 24 anos, a quem já lhes foi revirado o útero sem o consentimento dos familiares, tirando-lhes a chance de poder voltar a engravidar."

Muito diferente é aquilo que Leandra (outro nome fictício), de 28 anos, tem para dizer. Atendida na maternidade Lucrécia Paim, a jovem explica que foi bem atendida, desde o momento que entrou até ao dia em que saiu. Tanto assim foi que, diz, voltaria a viver a mesma experiência sem pensar duas vezes.

"Tive [o bebé] na maternidade Lucrécia Paim. Não conhecia ninguém que trabalhasse dentro do hospital, cheguei sem dor e fui dirigida para a sala de parto. Colocaram-me a soro e tive o meu filho. Graças a Deus nasceu com muita saúde. Fui atendida muito bem e não tenho motivos para reclamar de qualquer maltrato.”

Há enchentes de grávidas nos hospitais públicos, mas faltam os recursos

Face a estes casos, António (vamos dar-lhe esse nome), parteiro na maternidade Lucrécia Paim, não fugiu às questões que lhe foram feitas sobre a escassez de meios nas maternidades de Luanda – uma só cama para duas mães e mais dois bebés, por exemplo – e a falta de empatia, para com os pacientes, que muitos profissionais médicos revelam.

"Estamos sempre a receber pacientes, mas as maternidades não têm muita capacidade, devido à demanda. Há poucas camas nas enfermarias para que cada paciente tenha uma”, começa por salientar. “Mas não podemos deixar de as receber só por causa da enchente", remata. No seu entender, assim se explica que, para uma mulher que vai dar à luz pela primeira vez num hospital público, o ambiente que encontra pareça muito assustador.

Além disso, adianta, nem todas as pessoas estão preparadas para serem enfermeiras. Primeiro, é preciso ter compaixão e saber tratar bem as pessoas, características essenciais que só depois vão conciliar-se com os conhecimentos médicos adquiridos. Enfermeiros que maltratam grávidas são um problema que urge acabar, admite.

Quanto às altas, logo no dia seguinte, que recebem algumas mulheres que fazem cesariana, António diz que isso depende muito da capacidade de recuperação de cada uma. Contudo, avisa que muitas pacientes vêem as suas feridas infectarem por causa da enchente nas maternidades, a que se junta a falta de cuidados de saúde e de medicação.

Isabel Bernardo e João Lobato

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